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domingo, 1 de fevereiro de 2015

O Grande Hotel Budapeste (2014)

O grande Hotel Budapeste (The grand Budapest Hotel, 2014)
Direção: Wes Anderson
Com: Ralph Fiennes, Jude Law, F. Murray Abraham, Tilda Swinton, Adrien Brody, Willem Dafoe e Saiorse Ronan
Nota: 8.5

O trabalho de Wes Anderson no cinema já chamou atenção de um modo muito peculiar. Lembro-me agora de Os Excêntricos Tenembaums de 2001, comédia com cunho de crítica familiar e com muito, mas muito humor ácido e personagens disfuncionais. Este tipo de obra com um roteiro “meio amalucado” para os mais incautos e texto ágil e certeiro para outros, se faz também presente em O grande Hotel Budapeste, seu mais novo trabalho concorrente ao Oscar desse ano. 

Aqui Anderson deixa o seio familiar de lado e aposta em uma narração mais histórica baseada no livro de Stefan Zweig, que vivenciou os dois conflitos mais tristes da história da humanidade. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Anderson bebeu dessa fonte para desenrolar o presente, passado e futuro das tramas de um garboso Hotel, fonte de inspiração para as histórias do escritor fictício do filme (Jude Law/Tom Wilkinson). O autor do livro que dá nome ao filme, começa contando como obteve as experiências de sua obra na juventude por meio do depoimento do ex-funcionário do Hotel Budapeste, o velho Mustafá (F. Murray Abraham). Mustafá havia começado ali como um simples mensageiro e com a morte de seu patrão Mr. Gustave (Ralph Fiennes, em mais um trabalho de encher os olhos) acabou herdando o Hotel, anteriormente herdado pelo próprio. 

No passado, Gustave era o tipo de cavalheiro educado e bem vestido o suficiente para atrair pessoas para o Hotel que administrava, e charmoso o suficiente para conquistar mulheres mais maduras e solitárias. Entre elas estava Madame D (Tilda Swinton), uma ricaça que não poupa despesas para trazer o bom vivant sob suas rédeas e que depois vira uma protagonista póstuma das maiores confusões do filme após seu assassinato. 

Quando seu testamento é lido, seus familiares, caracterizados como verdadeiros abutres, ficam com partes de sua extensa herança, com exceção de um valioso quadro descrito como “O Menino com a maçã”. Este fica para seu amante Gustave. Mas o filho da velhota, o ganancioso Dimitri (Adrien Brody) promete não deixar que a vontade de sua mãe nesse caso seja cumprida, forçando Gustave a rouba-lo da mansão com a ajuda de seu leal funcionário, o jovem Mustafá (Tony Revolori) ou Mensageiro Zero. Uma série de assassinatos começam a acontecer pelas mãos do tão cruel quanto impagável Jopling (Willem Dafoe), o capanga de Dimitri. Quando uma trama bem elaborada por ambos leva Gustave à prisão acusado de ter matado Madame D, mais uma vez o patrão conta com a intervenção do leal Mustafá para escapar. Juntos, eles vivem uma experiência única nos tempos em que amizades assim eram muito raras. 

Zero e Gustave: amizade inter-racial em tempos difíceis

A trama entre rixas familiares e assassinatos agitam o roteiro num vai e vem que não atrapalha o bom andamento do filme. O espectador mais atento sabe perfeitamente se situar entre passado e presente e segue fiel ao desfecho dos heróis. O contexto histórico da guerra é inserido aos poucos, como a invasão Nazista representados por uma facção fictícia, mas com o mesmo poder de aterrorizar e chocar pessoas como Gustave, que ainda preserva a humanidade na alma e no coração bem como a paixão pelo seu trabalho. De fato, é um roteiro habilidoso e sem muitos furos, e com um texto excelente que salta da boca de atores que sabem bem o que fazer com ele. Uma produção impecável de figurinos, direção de arte, fotografia e um bom arranjo de design. Algo que realmente impressiona de tão grandioso como o próprio Hotel, bem destacado em cores na tela. 

Um grande elenco (Edward Norton, Saiorse Ronan, Jude Law, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Bill Murray) transitam na tela com uma liberdade versátil que este tipo de produção pode oferecer. Basta lembrar que foi em Os Excêntricos que Gwyneth Paltrow teve seu melhor e talvez único bom papel no cinema. Daí se percebe o poder do roteiro e do texto dos filmes de Wes. Em nota pessoal, adorei ver Saiorse Ronan em mais um bom papel pra ela como a confeiteira Ágata, com um quê de revolucionária e a volta do talentosíssimo F. Murray Abraham às grandes produções. 

Embora divertido em quase todos os momentos, romântico em poucos dele e frenético em sua essência, O grande Hotel Budapeste é um filme que ainda não foge de alguns elementos já mostrados em outras produções do diretor. A única diferença está em um apuro bem maior na produção e como citado, o forte contexto histórico na representação de um lugar naquela época sombria. O início da história poderia ter se destacado em um compasso melhor com o restante do filme. Pareceu um pouco confuso e por isso demora a engrenar como deveria. 

Quanto ao paralelo das obras de Wes, eu particularmente fiquei um pouco mais deslumbrada/empolgada com Os Excêntricos, talvez pelo fato de tê-lo assistido antes, assim minou o impacto de O grande Hotel. Porém não posso deixar de mencionar aqui a grande satisfação que tenho de acompanhar obras criativas que conseguem unir ação, romance, contexto histórico com uma comédia bem abalizada. Por tudo isso, merece o crédito que tem e a grandiosidade que conquistou junto ao público e à crítica. Será o suficiente para levar o Oscar de melhor filme? Aguardemos então pra saber se o filme com fortes raízes no passado, tem força no presente pra entrar na lista de vencedores e ser reverenciado no futuro. 

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