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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Perfil: Marlon Brando


UM BONDE CHAMADO MARLON BRANDO

“Ele é o marco. Há o “antes de Brando” e o “depois de Brando”
Martin Scorsese

Considerado por muitos como o maior ator de todos os tempos, pode-se dizer que Marlon Brando não nasceu para brilhar. Nasceu para chocar, polemizar, provocar. O brilho nestes casos foi apenas uma consequência de sua passagem (ou seria generosa contribuição) pela história da sétima arte. Contar a importância deste mito para o cinema é como escrever um enredo cinematográfico de várias partes ou personagens. James Dean, Elvis Presley e Orson Welles poderiam ser algumas das personas que ajudariam a constituir esta imperecível massa artística.

Um garoto chamado Marlon Brando Júnior. Ele nasceu de uma família calcada na frustação. Sua mãe Dorothy Pennebaker queria ser uma atriz, mas o marido possesivo não a deixou seguir seu sonho. Do fruto deste relacionamento nasceram três rebentos, dois deles se dedicaram a arte dramática. Jocelyn Brando não teve o mesmo sucesso que seu irmão nascido em Omaha no dia 03 de Abril de 1924. Desde cedo, o garoto impetuoso já sabia seu papel no mundo. Expulso da Escola Libertyville High School, logo foi mandado para uma Academia militar de Minnesota. Embora tenha se destacado na turma de teatro, uma tentativa de fuga da mesma, o levou a uma nova expulsão. Mesmo aceito de volta um ano mais tarde, decidiu não dar prosseguimento aos estudos por lá, partindo para Nova Iorque.

Um astro chamado Desejo. Foi no teatro de Nova Iorque, mais precisamente na Broadway, que Brando teve sua grande chance em 1947 na peça Um bonde chamado desejo.  Convidado pelo próprio autor, Tennessee Williams, ele brilhou sob direção de Elia Kazan. O mesmo que seria responsável pela transição segura para o cinema, num dos filmes mais polêmicos e controversos de todos os tempos. Bem ao estilo do ator. Seu inesquecível Stanley Kowalski povoou o imaginário de mulheres e homens da época, sendo até hoje um dos maiores sexy simbol da história. Em 1976 chegou a declarar que já teve experiências homossexuais e que ninguém tinha nada a ver com a sua vida entre quatro paredes. Uma estreia simplesmente arrasadora que o colocou na lista de personas gratas quando o negócio era criar uma fábrica de sucessos nas telas. Logo vieram o revolucionário mexicano Zapata em Viva Zapata! (1952), o lendário Marco Antônio de Júlio César no mesmo ano e um ex-boxeador em Sindicato dos ladrões (1954), que lhe conferiu o primeiro Oscar de melhor ator. Nesta ocasião, o jovem astro compareceu a cerimônia, vestido a rigor e dentro dos padrões legais, só pra constar.


Um ídolo chamado Brando. Como um motoqueiro sexy e rebelde em O selvagem (1953), faria parte de um seleto grupo de jovens rebeldes que arrastavam multidões aos cinemas. Deste grupo permeariam nomes como James Dean e Elvis Presley. Esta fase serviu para inflamar seus ideais além das telas. Ao optar por trabalhos como o filme Queimada! Que mostrava a cruel colonização europeia nas Américas, ele se mostrou um grande ativista nos anos 60, participando incisivamente pela manifestação dos direitos civis e indígenas. Fato que o levou a chocar a cerimônia do Oscar de 1973 quando enviou uma suposta nativa americana em seu lugar para receber a estatueta por O poderoso chefão.


Um amante chamado pecado. Três matrimônios e cinco herdeiros. Esta é a fatura de casos amorosos do deslumbrante ator capaz de provocar casos de amor tão confusos quanto a repercussão de seus filmes. Teve romance com muitas estrelas, mas foi Rita Moreno de Amor, sublime amor (1961) que tentou dar fim a própria vida pelo astro. Na lista de cônjuges estão a indo-britânica Anna Kashfi, a percursora de brigas judicias depois do divórcio. A mexicana Movita Castenada, de quem mandou anular o casamento. E por fim, a taitiana Tarita com quem filmou O grande motim (1962). Como se vê, até na vida pessoal Brando se marca pelas peculiaridades, algo fora do contexto padronizado de Hollywood.

Um ator chamado mito. O garanhão de Uma rua chamado pecado seria o primeiro dos grandes personagens que trilhariam nesta trajetória brilhante sublinhada pelo mitológico Vitto Corleone de O poderoso chefão (1972) e o jornalista amargurado Paul do escandaloso O último tango em paris (1973). Neste tempo, seu poder era tão grandioso que recebeu um dos maiores cachês da história para filmar Superman – o filme (1978). Estima-se que a quantia chegara a 1 milhão de dólares para aparecer poucos minutos na tela. Depois disso, ele ainda teve fôlego para mais um papel marcante de sua história. O assustador Coronel Kurtz de Apocalypse Now (1979), que como ressalta o The Guardian “esse é dos papéis crepusculares de brando, uma criatura infeliz nas trevas”.


Um homem chamado conflito. Se o sucesso conquistado nas telas lhe trazia fama e idolatria, a vida pessoal era marcada pelas polêmicas tragédias. A mãe morrera vítima do alcoolismo. Seu filho Cristian se envolveu num julgamento público pelo assassinato do namorado da irmã Cheyenne, que deprimida se suicida anos mais tarde. Sua Ilha particular no Taiti comprada em sua fase Cidadão Kane fora devastada por um furacão. Tudo em sua vida naquele instante se encaminhava para um triste desfecho. Engordou assustadoramente quando em 1990 filmou ao lado de Mathew Broderick The freshman, que classificou como uma experiência desagradável.
Um bonde chamado Marlon Brando. O garoto rebelde, que se tornou naturalmente um sexy simbol, inspirou várias gerações, amou de forma intensa e conturbada, marcou seu nome com talento na calçada da fama e soube administrar com muita personalidade sua vida profissional em meio a dramas e tragédias. Por tudo isso, podemos afirmar que em 1 de Julho de 2004, o cinema não perdeu um astro. Ele ganhou um mito. Tão audaz e imprevisível como um bonde, capaz de atropelar convenções, estabelecer um paradigma e consolidar a mais pura arte dentro e fora das telas.

sábado, 15 de setembro de 2012

Shame (2012)


Shame, 2012. Dirigido por Steve McQueen. Com Michael Fassbender, Carey Mulligan e James Badge Dale.

Nota: 9.2

Logo nas primeiras cenas de Shame percebemos que não se trata de um filme comum, e muito menos que é um trabalho de um diretor “viciado”, daqueles que seguem uma espécie de manual para conduzir um longa. Em seu segundo trabalho Steve McQueen, homônimo do consagrado ator “cool” americano morto em 1980, artista plástico conhecido em seu país mantém a pegada que o tornou famoso em Hunger (08) neste drama psicológico que contempla imagens degradantes, voyeurismo e sexo em seu mais puro descontrole. Novamente ao lado de Michael Fassbender.

O filme conta a história de Brandon (Fassbender, brilhante), que é bem sucedido no trabalho e mora sozinho em um apartamento de luxo no centro de Nova York. Tem grandes problemas em se relacionar com as pessoas e possui um incontrolável vício em sexo, que o leva aos submundos da prostituição e a sites de conteúdo repulsivo. Toda a estabilidade que tem com a situação é colocada em xeque quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan, ótima) vai morar com ele, e o pior, precisa de seu apoio.

O roteiro escrito pelo próprio McQueen junto com Abi Morgan logo nos remete ao último filme de Stanley Kubrick, De olhos bem fechados (97), porém é muito mais incisivo e com um dilema moral mais profundo. Logicamente a forma que Kubrick usou para se referir ao sexo, puxando pelo lado da infidelidade latente, mas não comprovada, se apega mais ao campo da psique solo do personagem de Tom Cruise. Neste Shame, a degeneração que Brandon sofre, e sabe disso, o que justifica a escolha do título, confronta com a instabilidade que sua irmã está passando, aumentando o grau de desespero da situação.

Fica bem claro que o problema de Brandon o deixa em um limite absolutamente perigoso, e nas entrelinhas é pontuado pela tensão sexual incestuosa entre ele e Sissy. O diretor opta por inserir as cenas de sexo mais impactantes quando a doença do personagem atinge o nível incontrolável, e são sequências que não abrem mão da classe e a poesia que se mantém constante desde o início o filme. Até o voraz ménage-a-trois não escamba para a vulgaridade porque McQueen faz com que o público se prenda às sensações do protagonista, ficando o sexo no segundo plano. Tudo conduzido por uma fotografia obscura e trilha sonora melancólica para acompanhar sequências longas e silenciosas.

Um filme brilhante e subestimado pela Academia, tanto quanto as atuações excelentes de Fassbender, verossímil nas cenas de sofrimento sexual de seu personagem, e Mulligan, que mergulha na agonia incessante de Sissy. É o cult movie do ano, que sem querer (ou não) mostrou o que poderia ter sido feito na obra mediana de Kubrick, e também que falar de sexo no cinema não pode ser tabu, e muito menos um amontoado de monótonas cenas libidinosas e sem sentido concreto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Filme brasileiro no Oscar 2013

Está previsto para acontecer no próximo dia vinte de setembro a escolha do filme que irá representar o Brasil no Oscar 2013. Para estar apto a concorrer ao menos a estatueta de melhor filme estrangeiro, a produção tem de ter sido exibida nos cinemas de 01 de outubro de 2011 a 30 de setembro de 2012, permanecendo em cartaz por no mínimo sete dias. As inscrições já foram recebidas e o Cineposforrest mostra quais seriam as melhores opções para buscar a indicação na categoria, que não acontece desde 1998 com Central do Brasil, de Walter Salles. 

Na enquete ao lado vote em quem você acha que deve representar o país no Oscar 2013.

O Palhaço

O filme de Selton Mello brinca com influências de mestres como Fellini, e tem uma direção segura. Pode agradar a Academia pela qualidade do texto e pelo seu tema, uma viagem de um homem dentro de si mesmo. O mote cômico e a atuação de Mello também são trunfos, porém por ter estreado ainda em 2011, já caiu um pouco no esquecimento, o que dificulta as coisas (vide Tropa de Elite 2).



Heleno

O filme de José Henrique Fonseca foi uma grata surpresa de 2012 e mostra de maneira sensata a carreira do ex-jogador de futebol Heleno de Freitas. Com uma fotografia impecável em preto-e-branco de Walter Carvalho, o filme ainda conta com a melhor atuação da carreira de Rodrigo Santoro, o que pode alavancar as chances do longa já que o ator está em evolução no cenário hollywoodiano. Seu único problema é o roteiro que às vezes apela a alguns clichês, mesmo que poucos.



Xingu

Apesar de ter recebido críticas medianas, o diretor Cao Hamburguer fez um trabalho competente e conta com a estética excelente das regiões amazônicas. Além de ter atuações muito boas de João Miguel e Caio Blat, a história verídica dos irmãos Villa-Boas ganha força pelo atual momento de discussões ambientais pela construção da Usina de Monte Belo. Outro fato é que o diretor já é conhecido dos acadêmicos quando foi para última seletiva com O ano que meus pais saíram de férias, em 2009. Seu problema, é que não conseguiu agradar tanto o público.


À beira do caminho

O interessante road movie de Breno Silveira conseguiu agradar o público e a crítica com a emocionante história de um homem que viaja em um caminhão na companhia de um menino, onde um procura a expiação de pecados de seus passado e o outro suas origens. O trunfo do filme está na atuação formidável de João Miguel, no roteiro bem elaborado por Patrícia Andre, baseadas em canções de Roberto Carlos, e uma fotografia agradável. Talvez por ter várias semelhanças com Central do Brasil, o longa caia em desagrado entre os votantes da Academia.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Personagens inesquecíveis: Gilda (Rita Hayworth)

Filme: Gilda (1946)

"Nunca houve mulher como Gilda". Só essa frase, que sobrevive por mais de seis décadas, é possível colocar o personagem de Rita Hayworth no hall dos inesquecíveis. Apesar de não ter ganho nenhum prêmio importante, seu temperamento difícil e uma exuberante sensualidade, povoou as fantasias masculinas e virou um ícone a ser seguido entre as mulheres. O erotismo subliminar em seus olhares, no modo como conversava, no seu jeito de fumar, fez dela a primeira grande femme fatale que tivemos o prazer de acompanhar. O mito em torno do personagem é maior até mesmo do que a atuação de Hayworth (apenas mediana) e que a qualidade do filme, que tem roteiro pobre, garimpado de antecessores bem melhores.  Sim, nunca houve ninguém como ela.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dez filmes para aplaudir


Belos, históricos, lendários, surpreendentes, ousados. Os filmes desta lista tem um algo a mais para apresentar além das fronteiras do puro entretenimento. Obras de fiel apreciação que ganham status comuns frente a elementos incomuns expostos por seus admiradores. Por isso são chamadas de obras-primas, aquelas que marcam a vida e história do público e do próprio cinema. Ramificada por diferentes gêneros, mas com uma só ordem. A de se fazer arte através das telas: 
 

O PODEROSO CHEFÃO (The Good Father, 1972)
Modelo para todos os filmes de gângsteres posteriores”
PREVIEW

Clássico. Esta é a palavra que mais se encaixa para adjetivar um filme de tamanha grandeza cinematográfica, ousadia pessoal e monstruosidade nas bilheterias dos cinemas. Tudo na obra-prima de Francis Ford Coppola soa a clássico. As histórias curiosas enveredadas nos bastidores, a escolha incomum do elenco de personagens míticos, e o processo de transposição da obra literária para o cinema. O ítalo-americano Mario Puzzo jamais seria esquecido pelas Academias de letras e sets de filmagem. Uma façanha histórica pautada no trabalho do autor que além de escrever, também ajudou no roteiro do filme que desenvolve uma fascinante história com todos os dramas, conflitos e interesses pessoais da lendária Família Corleone na América pós-guerra. Talvez este tenha sido um dos principais indicadores para o sucesso “seguro” da complicada arte de adaptação cinematográfica. Com o mesmo autor do livro a frente do projeto, podemos apenas esperar para vislumbrar no final uma obra impecável, cheia de nuances dos personagens que por conta disso entraram para a história. Houve duas outras sequencias, mas certamente a primeira impressão é a fica. Quando do se fala em O poderoso chefão imediatamente nos vem em mente o nome de Marlon Brando. Um dos maiores astros do cinema teve sua participação ameaçada no filme e só uma “teimosia” convicta de Coppola, fez os donos de o estúdio ceder. E o resultado de tanto esforço por parte do diretor pode ser acompanhado pelo desempenho extraordinário do ator que tornou Don Vitto Corleone um dos rostos mais conhecidos e figura mais aplaudida da história do cinema. Um êxito em todos os sentidos. Um filme poderoso.

Palmas para ela: um filme de tantas sequências memoráveis fica até difícil escolher por uma. Então, vamos citar uma cena tão memorável que se tornou modelo para os outros filmes do gênero. A emboscada no posto de gasolina sofrida pelo personagem Sonny Corleone (James Caan) quando seu corpo é brutalmente alvejado por rajadas incessantes de metralhadoras. A cena se tornou um marco antológico do gênero.


O EXORCISTA (The Exorcist, 1973)
Saber que tudo isso é baseado em fatos reais, piora um pouco as coisas”
MONET

O maior clássico do cinema de horror teve sua origem em fatos reais. Isto torna o filme de William Peter Blatty algo inesquecivelmente assustador. Nele, uma mãe (Ellen Burstyn) se muda com a filha Regan (Linda Blair) para uma estranha casa a fim de recomeçar. No entanto, neste processo, a vida logo se transforma em prenúncios inquietantes de morte. A relação cambaleante entre mãe e filha é interrompida abruptamente por forças sobrenaturais inexplicáveis quando Regan passa a ser dominada por um espírito das trevas. Para ajudar sua filha, a mãe faz o que qualquer mãe da vida real faria neste caso. Ela recorre a médicos e exames antes do apelo desesperado por um poder tão maior quanto a que elas estão confrontando. O arauto da salvação vem na força personificada pelo destemido padre Merrin (uma atuação assombrosa de Max Von Sydow), o “herói” da família. Com sequências tão arrepiantes quanto inesquecíveis, O Exorcista se difere dos outros filmes do gênero por inserir uma história dramática pautada em conflitos pessoais metaforicamente maximizadas nas cenas de terror solo da menina Regan. Por isso, esta obra não pode ser caracterizada apenas como mais um filme para assustar. Uma apocalíptica batalha entre o Bem e o Mal. Trata-se de algo diferenciado, fazer cinema de primeira grandeza vivenciada por um elenco bem dirigido em atuações ricas e convincentes. O primeiro do gênero a ser indicado a melhor filme. Assombroso, pavoroso, inquietante, espetacular. Uma obra que exerce um fascínio fiel mesmo com os incidentes ocorridos durante suas gravações nos sets de filmagens. Apontado por 10 entre 10 especialistas do ramo como imperdível pode fazer você saltar da cadeira!

Palmas pra ela: Linda Blair brilhou em cenas que causaram as mais diversas reações do público. Em uma delas, a menina Regan desce as escadarias de costas numa imagem chocante e há quem se lembre do giro de 360 graus que sua cabeça dá em repulsa ao padre. Uma atuação tão perfeita psicologicamente e consumadora fisicamente que custou o futuro da carreira da menina, que nunca conseguiu de desvencilhar das imagens do filme.


AMADEUS (Amadeus, 1983)
O resultado é um texto afinado, que ganhou nas telas um visual apurado e direção e interpretações inspiradas”.
CINEMATECA VEJA

Um homem dividido em dois.” Assim se define o compositor italiano Antônio Salieri (F. Murray Abraham) em sua jornada particular na conturbada relação com o gênio Mozart (Tom Hulce). A história que o diretor Milos Formam levou para as telas não se trata genuinamente de uma biografia de um dos mais famosos compositores do mundo. O filme se centra na figura do compositor Salieri que narra durante uma confissão no hospício como suas emoções em relação à figura de Mozart terminaram por afetar seu juízo. Diante de um perplexo padre (Richard Frank), ele descreve sua paixão pela música que o levou a ser o melhor compositor de Viena, até que a chegada de seu rival à cidade expôs toda sua mediocridade ao mundo. Um misto de inveja e admiração é condensado de forma mágica, na sublime interpretação de F. Murray. Tom Hulce também faz um excelente trabalho como o compositor em sua face extrovertida (aquela gargalhada contagiante é formidável!). Embora haja muita controvérsia em torno desta rivalidade de quem realmente seja o mocinho e o antagonista, o que fica é um show de beleza cinematográfica de mais uma das muitas versões da lendária história do compositor aqui mostrado como um homem que apesar de possuir um talento nato para a música, vive suas paixões de forma natural. Entre farras, brincadeiras e bebedeiras, faz de sua personalidade escrachada e até um pouco obscena, um ultraje à sociedade conservadora. Como todo gênio, foi incompreendido por muitos, exceto por seu mais ilustre admirador e algoz na versão de Salieri. Uma história avassaladora, inspirada numa peça brilhante de Peter Schaffer. Entre notas, acordes, sopranos e afins, tudo é deslumbrante em cenas estarrecedoras. Vencedor de 8 prêmios da Academia, é uma obra-prima de raro dueto. A música fabulosa é um êxtase para os ouvidos e Amadeus um êxtase para os olhos.

Palmas pra ela: a produção técnica do filme. Impecável no som, figurino, maquiagem, direção de arte, edição, fotografia. Ícones indispensáveis para se produzir uma obra de grande apreço visual.


O ÚLTIMO IMPERADOR (The Last Emperor, 1988)
O espetáculo é tão grandioso que a história se torna ornamento.”
SET ESPECIAL – 1000 vídeos

Um filme excepcionalmente grandioso que de tão absoluto venceu todas as categorias que disputou no Oscar naquele ano. Foram 9 em 9 indicações. O que transforma esta colossal cinebiografia em uma grande proeza. O último Imperador fascinou plateias do mundo inteiro com um magnífico espetáculo visual, onde podemos fazer uma viagem cheia de êxtase pelas ruínas da misteriosa China. O fascínio em torno da milenar e heroica história chinesa atiça a curiosidade de qualquer civilização. Isso por si só já é um bom motivo para se assistir ao filme. A maior obra-prima do talentoso diretor italiano Bernardo Bertolucci teve por mérito conseguir conciliar história, arte e cinema. Uma mescla poderosa que sintetizou com maestria o que chamamos de arte na mais concepção de todas as palavras. Para contar a fascinante biografia de Pu Yi (John Lone), o último soberano da China pré-revolucionária, o roteiro é desenvolvido em sequências grandiosas, emocionantes e instigantes. Um homem que teve de apender a conviver com o lado mais humano de ser um Deus entre seus súditos. Um homem que se sentiu prisioneiro dentro de sua própria casa, a chamada Cidade Proibida. A presença de um tutor inglês (Peter O’Toole) alimenta sua curiosidade em relação ao novo mundo. Quando eclode a revolução chinesa, o Monarca é deposto, acusado de traição dos novos ideais. Na prisão, misturado a outros, ele relata toda sua impressionante trajetória. Uma perfeita radiografia da luta pelo poder em tempos de reformas ideológicas. O diretor teve de usar de recursos técnicos verídicos em sua produção. Bertoluccci foi o primeiro cineasta a filmar no interior da cidade proibida. Um feito tão histórico quanto o magnifico filme que realizou posteriormente. Umas das últimas obras-primas reais do cinema.

Palmas para ela: a fotografia, a exuberância das imagens fundidas em cores vívidas numa espetacular trilha sonora. Arte pura sem a necessidade de palavras para expressar tamanho deslumbramento.



O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1990)
Realmente, tudo funciona neste filme”
SET

Um jogo de gato e rato se desenrola no filme brilhantemente arquitetado por Jonathan Demme entre as paredes de uma penitenciária de segurança máxima onde se encontra um dos maiores serial-killers da história do cinema. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) é o claro exemplo de uma mente brilhante que depois de usar seus poderes para o mal é abdicado de seu convívio com humanos. O psiquiatra aparentemente amistoso conduzia suas consultas de forma nada convencional quando se alimentava (ughr!) de suas vítimas. Quando uma série de desaparecimentos e assassinatos chama a atenção o FBI eles enviam sua melhor agente para o caso. A destemida Clarice Starling (Jodie Foster), ainda está na Academia, mas seu diretor (Scott Gleen) vislumbra nela um grande futuro profissional. Assim, a bela agente faz uma espécie de pacto com o diabo para obter sucesso no caso que mudará sua vida. Ela procura o renomado Lecter para trocar pistas e informações a respeito. O psiquiatra usa toda sua lábia profissional para formular uma relação psicologicamente íntima com a agente. Lecter tece uma teia de emoções dantes esquecidas por Clarice. Cria-se uma admiração empática entre ambos, levando-a a superar antigos traumas. E dá-se início a uma das mais rendosas parcerias do cinema. Os personagens se tornaram míticos, os atores famosos e o filme lendário. O Silencio dos inocentes foi uma das raras obras que conseguiu a proeza de levar todos os prêmios mais relevantes do Oscar: melhor filme, direção, ator, atriz e roteiro. Uma obra que de tão surpreendente nos deixa em silêncio para apreciar personagens notáveis em trabalhos brilhantes.

Palmas pra ela: as atuações de Hopkins e Foster entraram em várias listas de grandes performances do cinema. Uma química única ajudada pela construção minuciosa dos perfis de seus personagens (Hopkins e os olhos hipnotizantes de Lecter) em um roteiro excepcional.


O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving private Ryan, 1998)
Aqui Steven Spielberg arrasa na direção e faz um dos melhores filmes de Guerra de todos os tempos”
CINEPLAYERS

Como um filme de guerra, bombas e explosões, pode ser considerada uma obra imperdível e de beleza sem igual? A resposta é uma só: Steven Spielberg. O mago do cinema nos brinda com um filme que leva às lágrimas mesmo tendo em seu casting principal personagens masculinizados. Tudo começa com uma sequencia espetacular de quase 20 minutos numa representação da famosa batalha na praia de Omaha, no chamado Dia D quando as tropas americanas avançaram na Guerra e segue o Capitão Miller (Tom Hanks) em sua última missão com um grupo de soldados de Elite recrutados com um único objetivo: trazer de volta ao seio de sua mãe americana o destemido soldado James Francis Ryan (Matt Damon), depois que este perde seus irmãos em combate. Neste trajeto, os perigos eminentes de uma malfadada Guerra se apresentam da forma mais dramática possível, descaracterizando o gênero. Batalhas sangrentas e mortais servem como pano de fundo de um roteiro bem apurado que poderia ser simples neste contexto. Mas se tratando de Spielberg sempre esperamos por mais. O mais de O resgate do soldado Ryan consiste em adicionar cenas técnicas, estrondosas e cheias de testosterona a algo emocionante, singular, de uma beleza indissolúvel quando mostra homens da guerra antes de heróis condecorados, humanos com seus medos e inquietações diante do desconhecido. Spielberg captura as cenas brutais catapultando momentos singelos como se ouvir Piaf antes da inesquecível batalha na ponte. Por tudo isso, o filme é uma exímia obra de arte que emociona na brutalidade dos tiros e canhões. Um resgate da genialidade em se fazer algo inesquecível.

Palmas pra ela: As interpretações seguras Matt Damon, Giovanni Ribisi e Edward Burns desnudam seus personagens com uma veracidade impressionante. Encabeçados pelo excelente Tom Hanks, o elenco do filme não deixa por menos e com certeza é um dos responsáveis pelo êxito do filme.


KILL BILL (Kill Bill, 2001)
Um lindo delírio visual”
FOLHA DE SÃO PAULO

Um dos melhores e mais divertidos filmes de ação de todos os tempos é considerado uma obra-prima do mestre do excêntrico Quentin Tarantino. Acostumado a se enveredar pelos caminhos da Torre de Babel cinematográfica, aqui ela recria uma famosa personagem americana dos quadrinhos, dá corpo à sua conhecida personalidade e uma espada de samurai a tiracolo. Elementos capciosos em sua busca sangrenta por vingança. Bellatrix Kiddo (Uma Thurman) fazia parte de uma poderosa organização criminosa e tinha como missão assassinar pessoas por encomenda – As víboras mortais -, liderado pelo mafioso, bandido, traficante, ou uma destas denominações de coisas ruins Bill (David Carradine). Depois de engravidar, Bellatrix (de codinome Mamba negra), tenta mudar de vida, assumindo uma nova identidade e prestes a constituir família. Entretanto, os fantasmas de seu passado retornam na forma de quatro assassinos do clã que promovem um massacre em seu casamento deixando-a em coma. Mais tarde ela acorda em busca de vingança contra seus algozes. Munida de uma poderosa arma, ela começa a espalhar uma trilha de sangue pelo caminho. Um a um seus inimigos sucumbem a sua Hattori Hanzo e o que se vê é um show de A noiva conjurada por lutas vibrantes, mutilações inesquecíveis em meio a uma grande e boa dose de senso de humor reforçada pela construção perfeita dos coadjuvantes. Marcas de Tarantino. O obvio se transforma em algo inusitado que a cada cena ou golpe desferido, se faz de forma memorável. Uma belíssima homenagem ao cinema de ação particularmente Kung-Fu. Ideia alimentada pela presença do astro Carradine e lendas japonesas. Kill Bill pode ter a morte no nome, mas paradoxalmente fala de vida. Vida inteligente no cinema.

Palmas pra ela: a sequência arrasadora do confronto na casa das flores azuis. O olhar ferino da justiceira vingadora parece pouco diante do poder de destruição de seu instrumento da morte. Sua espada cantou nos membros de seus adversários promovendo um verdadeiro massacre pela tela. O visual escarlate deu lugar a traços incolores da sequencia para dar ênfase ao derramamento de sangue. Genial!


O LABIRINTO DO FAUNO (Pan’s labirinth, 2005)
O Labirinto do fauno oferece muito para admiração do público”
1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER

Considerada a obra mais madura do surpreendente diretor Guilhermo Del Toro, esta estória dentro da história foi uma grata surpresa do Oscar de 2006. Levou 3 estatuetas em categorias técnicas (maquiagem, direção de arte e fotografia). A minúcia realista desta obra causa tanta admiração quanto espanto. As características técnicas apoiadas num roteiro formidável dão ao filme um merecido status de algo admirável em que viajamos por um mundo de fantasia captado pela meiguice da menina Ofélia (Ivana Baquero). A garota poderia ser uma das conhecidas princesas de contos de fada. Mas ao contrário das fábulas infantis, Ofélia teve de se acostumar com a dura realidade trazida após a Guerra Civil espanhola. Enquanto suas “colegas” tinham uma madrasta má em seu encalço, a menina tinha como tormento um padrasto tão cruel que as madrastas más certamente temeriam. Quando se muda com sua mãe para a casa do Capitão Vidal (Sérgi López), ela se vê rodeada de tristeza e morte. Este caminho só poderia leva-la a uma fuga para outro mundo habitado por um dúbio Fauno. Através de um labirinto é avisada que é a reencarnação de uma princesa que perdeu a memória quando cruzou o limite entre os dois mundos. E para retornar, ela teria de passar por três difíceis provas, que lhe exigiriam astúcia, coragem e sacrifício. A simplicidade do filme para por aqui. Levantando questões mais relevantes do que o felizes para sempre, O Labirinto do Fauno nos transporta para dentro de um mundo apaziguado no coração angustiado de uma criança ao enxergamos por seu ponto de vista os horrores de tempos difíceis. O tom mais soturno de sua produção vai de contraponto as cores cintilantes de um mundo de fantasia. A junção coesa entre o horror da realidade e a sutileza da fantasia nos dá a certeza de que nos dias atuais, cada vez mais desejamos nos perder por este fabuloso labirinto de sonhos.

Palmas pra ela: a maquiagem vencedora do Oscar que certamente é um requisito importantíssimo na arte em se criar seres imaginários. Tudo é minunciosamente perfeito e dá à história a possibilidade em se enxergar beleza em algo soturno. Elemento raramente visto no cinema.


CISNE NEGRO (Black Swan, 2010)
Aronofsky leva o espectador a buscar a perfeição e deixa a emoção nas mãos de Natalie Portman”
SCI-FI NEWS

Intenso. Não há outro adjetivo melhor para definir uma obra de grande apreciação que desnuda as várias facetas da psique humana. Esta intensidade é deflagrada a cada sequência eletrizante do filme muito bem montado e dirigido por Darren Aronofsky. O diretor se tornou um especialista em criar monólogos intimistas de seus protagonistas nos brinda com uma obra que exala beleza em todos os poros. Cisne negro começa como o retrato fiel da dolorosa vida de quem se dedica a oferecer beleza ao espetáculo. Jovens belas e determinadas que flutuam sobre o palco depõe como um tema interessantíssimo. Por ele, acompanhamos a saga pessoal Nina Sayers (Natalie Portman, espetacular) como aspirante ao posto de protagonista de uma das mais famosas peças do mundo: O lago dos cisnes. E é obvio que para chegar ao topo, a frágil bailarina teve de enfrentar muitos adversários. A massacrante rotina de treinamentos com o exigente diretor, a mãe obcecada, uma linda e competente rival. No entanto, nenhum desses adversários se revelou tão forte quanto uma velha conhecida. E é justamente aí que o filme muda de contexto. Disposta a enfrentar sua maior rival, Nina mergulha intensamente na maior batalha de sua vida que vai além dos palcos. A busca pelo autoconhecimento. Para isso, sua sensibilidade apurada dá lugar a uma persona mais forte e sexual com a presença quase que irritante da colega Lily (Mila Kunis). As cenas entre as duas são de tirar o fôlego. Um trabalho que privilegia mais o lado sensual do que o sexual. Um poder desconhecido que ela só consegue controlar quando começa a se entender numa viagem eletrizante ao íntimo do ser. Uma das mais instigantes e belas obras do cinema. Tudo é perfeito. Tudo leva a perfeição. A música, a dança, os avanços voluptuosos da personalidade da protagonista em sequências apoteóticas. Impossível não se deixar levar pela beleza do cisne.

Palmas pra ela: A incrível metamorfose do cisne negro. Entre um rodopio e outro, o êxito físico e pessoal da personagem transborda na tela. Magnífico!


O ARTISTA (The Artist, 2011)
A novidade é que o diretor resolveu usar a falta de palavras e o uso escasso do som como instrumento de linguagem, conferindo-lhe um charme a mais.”
PREVIEW

Ousadia é uma marca registrada para elevar uma obra a algo admirável e inesquecível. Este foi o elemento pilar deste vencedor do Oscar de 2012. O Artista falou brilhantemente de cinema sem dizer uma palavra sequer. Uma homenagem a Era de Ouro do cinema mudo que arrebatou milhões de fãs pelo mundo afora. o filme de Michel Hazanavicius tinha tudo para ser um fracasso, mas se tornou surpreendente, mágico, vibrante. Com uma ideia atemporal, o filme não precisa de avançados recursos tecnológicos para tocar fundo na alma. Em tempos de explosões cataclísmicas para atrair bilheterias, é um belo retorno à ideia primordial de fazer cinema como arte. Como se trata de uma obra muda e em preto-e-branco coube ao valioso elenco atores o árduo trabalho de passar sua mensagem por meio de caras, bocas e expressões corporais inconfundíveis da época. Isso fez do francês Jean Dujardim um oponente imbatível na corrida do Oscar. Perfeito e ambas as interpretações tanto física quanto psicológica nas emoções de seu galã decadente. George Valentim era o Deus das telas quando sua aparência “falava” por ele, despertando inúmeras paixões. Entre elas se encontrava a carismática Peppy Miller (Bérénice Bejo) cuja carreira se ascende paralelo a descendente de seu maior ídolo que sofre intensamente o golpe da chegada do cinema sonoro. Sua aparência já não mais poderia servi-lo na carreira. Assim sendo, o Deus virou um mero mortal e como tal se expõe as mazelas de se conviver entre os mortais. Falido, assiste sua pupila cada vez amada por um público que já foi seu, mas luta até o fim para não “vender” seu talento aos tubarões corporativos da época. “Sou um artista, não um boneco”. Tudo transcorria para um triste final até que é resgatado por sua fiel admiradora que com ele forma uma dupla de sucesso. Um final feliz para um filme de final feliz. A trajetória do protagonista é uma alusão a própria trajetória do gênero em questão. Um cinema que todos acreditavam estar perdido, mas que foi corajosamente resgatado numa obra-prima que entra para os anais da história cinematográfica como uma arte imortal.

Palmas pra ela: a sequência final do filme na dança sincronizada de Valentim e Miller. Ambos os atores retrataram a química fantástica de seus personagens numa cena de pura alegria e deleite.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Abraham Lincoln: o caçador de vampiros (2012)


Abraham Lincoln: vampire hunter, 2012. Dirigido por Timur Bekmambetov. Com Benjamin Walker, Dominic Cooper, Anthony Mackie e Mary Elizabeth Winsted.
Nota: 5.8
Abraham Lincoln, como consta na história americana, foi o 16º e mais importante presidente que já comandou o país. Acabou com a escravidão e teve de enfrentar uma gigantesca crise com a famosa e desastrosa Guerra Civil Americana. Como se não bastasse tantos feitos, o escritor Seth Grahme-Smith o transformou em um herói fictício em seu livro e rapidamente foi transportado para as telonas com produção de Tim Burton e direção de Timur Bekmambetov. Porém, essa mistura de história e ficção hi-tech é uma faca de dois gumes, e para o atual cinema, isso já é uma premissa não muito boa.
A trama desenvolve-se juntamente com a vida de Abraham Lincoln, que quando criança viu sua mãe ser mordida e, consequentemente morta por um vampiro. Com este rancor no coração, o já adulto Abe (Benjamin Walker) se vinga do assassino de sua mãe com ajuda de Henry Sturges (Dominic Cooper), que lhe ensina a arte de ser um caçador de chupadores de sangue. Quando percebe que somente com a força de seus golpes de machado não poderia extinguir a raça de amaldiçoados, ele entra para a política e se torna presidente, e durante a Guerra Civil, perceberá que os vampiros podem mudar o curso da história, cabe a ele impedir.
O roteiro segue a risca o livro e traz esta mistura de fatos reais com a cultura pop que domina a literatura (que já conta com a protagonista de Orgulho e Preconceito matando zumbis), e consequentemente o cinema. Mas a falta de nexo temporal é um dos principais problemas da obra, e no cinema tentou-se encobrir com ação, violência e sangue transbordando pela tela. Os motivos criados para que os vampiros entrassem na guerra são ainda mais estúpidos que a explicação para sua origem e suas fraquezas, que sem se esforçar muito o espectador começa a se confundir com outras mitologias.
Tim Burton, provavelmente, não pensou muito para preferir só ficar na produção e acompanhar de longe Bekmambetov na direção. O texto leva o filme a incessantes combates hiperviolentos, o que fez com que o diretor optasse pelos slow-motions, que antes da metade do longa já cansa os olhos e no final já é um recurso enfadonho e irritante. Ainda assim, as cenas são mal coreografadas e sem picos de tensão, já que não se desenvolve lutas mais incisivas.
Por mais que seja baleado pela miscelânea inteligível do filme, Benjamin Walker consegue dar vida a um Lincoln razoável, principalmente pelo seu posicionamento altivo e intrépido, se fosse em uma produção séria, talvez conseguisse um reconhecimento melhor. Se o protagonista não é bem construído, os coadjuvantes se mostram quase nulos, tendo destaque mediano apenas Sturges, como o mentor de Lincoln.
Se a ideia delirante de Grahme-Smith se limitasse a um período da vida do ex-presidente com certeza toda a bobagem seria mais fácil de ser tragada pelo público. Abraham Lincoln: o caçador de vampiros é um filme que exemplifica bem o momento da literatura pop e do cinema, que parece ter só olhos para ela. O que já começa a deixar nostálgico quem sempre assistiu roteiros bem elaborados, originais ou adaptados, se tornarem obras-primas. Sorte que temos Steven Spielberg que vai levar o presidente Lincoln, o "normal" que será vivido por Daniel Day Lewis, ao público que não conhece ele e a seus feitos. Estamos aguardando.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Os mercenários 2 (2012)


The expandables 2, 2012. Dirigido por Simon West. Com Sylvester Stallone, Jason Statham, Jean-Claude Van Damme, Bruce Willys, Arnold Schwarzenegger e Chuck Norris.
Nota: 6,4
Quando Sylvester Stallone resolveu juntar os maiores heróis dos filmes de ação das décadas de 80 e 90 em Os mercenários, em 2010, foi motivo de chacota geral. Tanto que alguns figurões do gênero deram de ombros. Mas Sly não se abateu, conseguiu juntar a maioria deles e fez um filme que, se não foi uma unanimidade, arrecadou bem mais do que investiu, e ganhou força para retornar às telonas muito mais violento, engraçado e, o melhor, com a turma completa.
Neste novo longa, Barney Ross (Stallone) e seu grupo são enviados para uma missão, a mando de Mr. Church (Bruce Willys), para resgatar um importante objeto em algum lugar da China. Porém, eles são vítimas de uma emboscada armada por Vilian (Jean-Claude Van Damme) e um de seus amigos é brutalmente assassinado pelo vilão. Com todo o arsenal que lhes é disponível, os mercenários partem para o leste europeu em busca de vingança, e contarão com a ajuda de outros intrépidos e inesquecíveis justiceiros.
Tudo bem que o roteiro feito por Stallone com a ajuda de Richard Wenk é frágil, repleto de clichês e com uma tentativa de apelo dramático pueril. Há, ainda, a inserção de um interesse romântico para Ross, a valentona Maggie Chan (Yu Nan), mas que não vingou. Entretanto, houve mais acertos em relação ao anterior. Desta vez, não houve uma tentativa de impor uma "ação séria", e sim uma maior valorização do lado cômico, que naturalmente surge quando faz-se uma paródia. As piadinhas pipocam a todo momento, principalmente relacionando cada ator com passagens de suas carreiras, que as tornam ainda mais engraçadas.
O bastão da direção desta vez ficou a cargo de Simon West, que tem bagagem em dirigir ações explosivas e frenéticas. A cada sequência, valoriza tudo que os atores podem oferecer. Se tivesse dado mais espaço às lutas corpo a corpo, como nos casos de Jet Li e Jason Statham, teria conseguido empolgar muito mais. Os excessivos tiroteios deixam o filme enfadonho, e só tem o "gelo quebrado" quando Chuck Norris dá o ar da graça.
Por falar nele, foi a grande surpresa do filme. Talvez seja o mais hiperbólico dentre todos que compõe o elenco, com sua cara de poucos amigos e os tiros ininterruptos, no melhor estilo Braddock. Outro que resolveu entrar na brincadeira foi Van Damme, que depois de se recusar a participar do primeiro filme, viu a chance de voltar ao estrelato. Arnold Schwarzenegger e Bruce Willys entram de vez no elenco, sendo que o primeiro dispara piadas sobre seu personagem mais famoso (o Exterminador) a todo o momento. O restante do bando cumpre bem seu papel (até Dolph Lundgren faz rir) e analisá-los em sua atuação não convém neste filme.
Os mercenários 2 é uma grande paródia do gênero que dominou o cinema por duas décadas e que anda meio em baixa. E para provar isso, quando Stallone diz "isto é uma peça de museu", a respeito de um velho avião, Schwarzenegger responde "somos todos peças de museu", se referindo a todo o elenco veterano do filme. Vai capturar os fãs de ação sedentos por explosões e tiros. Mas é provável também que agrade quem cresceu ou envelheceu assistindo todos eles acabarem com vilões de todos os tipos em filmes de qualidade duvidosa. São os eternos grandes heróis do gênero, e isso já vale pelo menos o ingresso.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Chicago (2002)


Chicago, 2002. Dirigido por Rob Marshall. Com Catherine Zeta-Jones, Renée Zellweger, Richard Gere, Queen Latifah e John C. Reilly.

Nota: 10


Grande vencedor do Oscar em 2002, este esfuziante musical que completa uma década, trouxe de volta o deslumbramento de um gênero grandioso que encantou muitas gerações

“Nesta cidade os assassinatos divertem as pessoas.” Partindo desta premissa, Rob Marshall criou uma obra genial perfeitamente fundida em comédia-musical. Chicago é um êxito de espetacular divertimento que retrata de forma única as atribulações pela corrida desenfreada pelos preciosos 15 minutos de uma fama instantânea que não se importa com as malfadadas origens da mesma. Aqui, a crítica social se desenvolve em números criativos e deslumbrantes pautados em atuações memoráveis.

“Com todo este jazz”Catherine Zeta-Jones, Renée Zellweger e Richard Gere encabeçam um elenco formidável que além de interpretar, canta e dança impecavelmente. Tanto que foram indicados ao Oscar daquele ano. Zellweger era a estrela da vez, depois do megassucesso de O diário de Bridget Jones, ela decolou no papel de Roxie Hart, uma atrapalhada aspirante à vedete. O príncipe de Uma linda mulher se superou ao interpretar com tamanha veracidade o advogado canastrão Billy Flyn. E Zeta-Jones foi a grande estrela do filme, emprestando brilho e talento a Velma Kelly, em seu melhor desempenho de uma vedete afetada que depois de ser acusada de assassinato, só pensa em reconquistar a fama perdida. A personagem lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Um trio de protagonistas que soaram como música aos ouvidos da Academia. 

“Homem celofane” – o multitalentoso John C. Reilly figurinha tarimbada das grandes produções também engrossou o soberbo elenco do filme. Como Amos Hart, o marido traído que carrega o amor no nome personificou a imagem humana muitas vezes deixada para trás em nome da fama. O ator deu um show à parte, especialmente em seu solitário número musical.

“Ilusionismo”o tema central do filme é uma enorme cadeia de acontecimentos que leva a fama ilusória, ou seja, tudo que vem fácil vai fácil. As personagens se engalfinham o tempo todo procurando o topo desta cruel cadeia alimentar chamado show buziness. Suas palavras e ações são alimentadas por cada momento que passa cada uma delas em sequencias memoráveis.   

“Celebridade que todos conhecem por aí”capas de revistas, modelo de beleza, anúncios nos jornais, comercialização da imagem. As estrelas Roxie e Velma, cada qual a seu devido tempo, eram os rostos que todos conheciam na cidade desfrutando dos benefícios que esta posição poderia ofertar. Mesmo estando atrás das grades, o que mais importava eram as luzes de néon em torno de seus respectivos nomes. Membros do conhecido coro: falem mal, mas falem de mim.

“A vida é toma lá, dá cá”esta certamente é a regra número um do show buziness. Conquistar a almejada fama pode ser até fácil numa daquelas jogadas do acaso, mas difícil mesmo é mantê-las. E para isso são necessários vários recursos materiais e financeiros. A ponte deste processo era a carcereira Morton (Queen Latifah). Uma espécie de mama daquelas que com ela trocava favores na prisão. É, a fama tem seu preço de vários aspectos.

“Gostar da vida que leva”por que se esforçar tanto e tanto em ser famoso? Quando levamos em consideração mais os contras do que os prós que a fama possa acarretar, a única resposta cabível neste caso seria o gostar da vida que leva e desejar mantê-la a todo custo. Correr atrás ou estar à frente de todos os acontecimentos oportunos com muito afinco. Aquela velha história de que nasci pra ser famosa e nada vai me impedir.

“O tango da lamúria”certamente esta é a melhor sequencia do filme. Em sua primeira noite na prisão, Roxie (Zellweger), olha atentamente as gotas da torneira de uma pia cair e logo começa o show de beleza corporal das detentas na ala das assassinas. No número, uma a uma contam como cometeu o crime que as levou a este destino. Uma sequencia esplendorosa que rendeu ao musical de Marshall o Oscar de melhor filme. Um feito tão grandioso ao compararmos com as obras que concorreu naquele ano. A segunda sequencia de O senhor dos anéis – As duas torres, O pianista e As horas são apenas alguns exemplos das obras que valorizaram a vitória de um gênero dantes esquecido. Vencedor de 6 Oscar, incluindo a surpreendente vitória como melhor filme. Disso se faz uma obra de rara contemplação, bom entretenimento e excelência em espetáculo.