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sábado, 29 de novembro de 2014

10 Filmes inesquecíveis da minha infância – Parte 2

Bem, não é de hoje que gosto de assistir a filmes. Desde o final dos anos 80 até os meados dos anos 90, assistia a vários deles nas Sessões da tarde e Supercines da vida. Histórias divertidas, que mesmo bobinhas carregavam a inocência de que estava engatinhando pelas veredas do cinema. Claro que o senso crítico aqui deixou muito a desejar em algumas produções. Mas podemos cobrar algo de quem apenas estava procurando entretenimento? 

Já listei aqui mesmo no Blog a primeira parte desse momento nostalgia, agora vamos finalizar com algumas produções que além de terem tido a graça de divertir, também entraram para a história como grandes produções do cinema:

1 – Krull (1983)

Dirigido por Peter Yates, uma história sobre jovens apaixonados incapazes de realizar seu Amor. O Príncipe Colwyn (Ken Marshall) tem seu casamento interrompido pela maldade de um Ser pavoroso chamado de A Besta, que sequestra sua bela Princesa Lyza ( Lysette Anthony). Depois de ver todo o seu Reino destruído, o jovem parte em busca da amada para dar sentido a sua vida. Une-se a ele nesta jornada personagens carismáticos que nos impulsionam a torcer pelo sucesso da jornada. Um velho sábio, um guerreiro mulherengo vivido por Liam Neeson, um feiticeiro atrapalhado que se transformava em vários animais e um Cíclope do Bem. Embora tenha tido uma morna receptividade nas bilheterias, foi o precursor para outros filmes de fantasia.



2 – Splash – uma sereia em minha vida (1984) 

Dirigido por Ron Howard, esta comédia foi a primeira dos estúdios Touchstone Pictures, criado pela Disney, a desenvolver um tema mais adulto. Daryl Hanna no auge da beleza protagonizou a trama de uma sereia que salva a vida de um jovem solitário vivido por Tom Hanks. Os dois se envolvem em plena Nova Iorque e o jovem tenta impedir que um grupo de pesquisadores inescrupulosos façam experimentos com a bela mulher/sereia. É típico Sessão da tarde reprisado várias vezes durante vários anos, afinal, a clássica história de um Amor proibido sempre mexe com os corações independente do ano.


3 – Karate Kid – A hora da verdade (The Karate Kid, 1984) 

O jovem Ralph Machio e o veterano Pat Morita entrariam de vez na lista de personagens inesquecíveis do cinema nesta história sobre Amor, superação e diferenças culturais. Tudo bem que o enredo hoje pareça muito pobre, mas eu duvido que alguém tenha ficado indiferente à história de um rapaz em um país estrangeiro que para defender seu relacionamento, decide enfrentar uma gangue de valentões. E também duvido que ninguém tenha tentado fazer o mesmo “golpe da águia” de Daniel. Para isso, ele contou com a ajuda do velho Senhor Miyagi, que lhe ensina mais do que alguns golpes. O sucesso foi tão grande que gerou uma franquia além de cinema com venda de bonés, bonecos, faixas como de Daniel Laruso e etc....Simplesmente memorável! 

4 – Os caça-fantasmas (Ghostbusters, 1985) 

Dan Aykroyd, que também estrela o filme, nem esperava que seu roteiro fosse ser tão marcante com uma trilha sonora inesquecível. Quem nunca sonhou em caçar fantasmas quando crianças? Pois é, diante de todo este apelo, não foi muito difícil o filme cair nas graças do público no começo dos anos 80, dourado para as aventuras. Peter (Bill Murray), Raymond (Aykroyd) e Egon (Harold Ramis) são professores de parapsicologia da Universidade Columbia que usam a verba que ganham para investigar fenômenos paranormais que a ciência desconsidera. Demitidos da universidade, abrem seu próprio negócio de “caçar fantasmas”, transformando-se em heróis de boa parte da população e de muitas crianças da época. O filme que ainda contava com Sigourney Weaver e a faísca cintilante da franquia Alien, fez tanto sucesso que ganhou mais uma sequência e uma versão em desenho animado.

5 – Indiana Jones e o Templo da perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1985) 

Comecei pela segunda aventura do eterno arqueólogo estrelado por Harrison Ford. Dentre as três sequências esta foi a primeira que assisti e a que realmente me impressionou. Se em os Caçadores da Arca perdida tivemos mais ação e diversão, aqui Indy enfrentou forças mais sombrias, como escravidão infantil e poder das trevas que provinha de sacrifícios com crianças. Macabro não? Pois foi isso que fez o filme receber críticas menos entusiasmantes e mais o fato de terem inserido a cultura Hindu, tão controversa em qualquer obra. Outro problema do filme foram as distinções ideológicas de Steven Spielberg e George Lucas. Embora hoje seja voltado para o gênero aventura, o fato é que o estilo mais adulto soube marcar história em mentes impressionáveis, como a minha, mas nunca deixou de ser uma ótima diversão.


6 – Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller's Day Off, 1986) 

Quem nunca sonhou em enganar os pais e matar um dia de aula para curtir a vida adoidado? Para os adolescentes dos meados dos anos 80 era um sonho de consumo, bem diferente de hoje, não é mesmo? Assim, o filme estrelado por Matthew Broderick se tornou eterno, um verdadeiro clássico. A identificação com o público vem da naturalidade com o que foi produzido. O autor Jhon Hughes escreveu em apenas dois dias o roteiro e contou com o improviso dos atores em certas passagens. Sucesso instantâneo!



7 – Os aventureiros do Bairro proibido (Big Trouble in Little China, 1986) 

O que seria um faroeste transformou-se numa aventureira multicultural pelas mãos do roteirista WD Richter e dirigido por Jhon Carpenter. Como outro filme de Eddie Murphy com a mesma temática tinha sido lançado na época, as aventuras de dois amigos inter-raciais atrás de uma garota especial não foram muito bem recebidas pela crítica, afinal, Kurt Russel não era Eddie Murphy. Ainda assim o filme diverte pelas lendas chinesas sempre intrigantes. Belas e ao mesmo tempo assustadoras, e pelo elenco que seria anos mais tarde conhecido na TV. A bela Kim Katrall já desfilava toda sua acidez da fogosa Samantha de Sex and the City e a jovem Kate Burton, nem imaginava que mais tarde, seria Ellis Grey, a mãe da médica mais famosa da TV.



8 – O rapto do menino dourado (The Golden Child,1986) 

Eddie Muprhy foi o escolhido para estrelar esta aventura com alto teor de comédia que traz o rapto de um menino tibetano que seria a encarnação de Buda para trazer ao mundo a Paz e compaixão. E claro, que os seres das trevas, representado pelo Diabo não poderia deixar isso acontecer. Através de seu emissário Sardo Numspa (Charles Dance) ele sequestra o menino e o mesmo teria que se alimentar de sangue para poder ser morto. Eddie vive o mesmo policial cínico e escrachado de Um tira da pesada só que dessa vez a missão é sobrenatural. Além disso, o filme, que não deixa de ter bons momentos, sobrevive graças ao carisma exagerado do ator, que parece estar fazendo uma daquelas comédias stand up. É muito Eddie Murphy na tela, porém muita diversão também.


9 – Viva! A babá morreu! (Don't Tell Mom the Babysitter's Dead, 1991) 

Mais uma história de emancipação adolescente. Quando a babá contratada morre de um enfarto fulminante, as crianças não sabem o que fazer com o corpo da Senhora. Só há certeza em uma coisa: o ocorrido deve ser escondido dos pais, que se soubessem voltariam para casa. A princípio, só alegria pelo gosto da liberdade, mas quando percebem que o dinheiro estava com a velha, a filha mais velha Sue (Christina Applegate) arruma um emprego com um falso currículo. Ela se faz passar por uma mulher mais velha, mas como não tem experiência, cria as maiores confusões no ramo. A trama pode até ser fraca, mas na época era mais um “meio” dos filhos sonharem em estar na pele daquelas crianças por um tempo. 



10 – De volta à Lagoa Azul (Return to the Blue Lagoon, 1991) 

Depois do estrondoso sucesso de A Lagoa Azul estrelada por Brooke Shields, Milla Jovovich (outra beldade) retorna à canga e as praias afrodisíacas de Lagoa azulina. Tudo acontece depois que os pais do pequeno Paddy são encontrados por um veleiro mortos em uma canoa. Sarah (Lisa Pelikan) uma viúva que estava no veleiro com sua filha, resolve adotar o fruto do Amor do casal de jovens do primeiro filme. Tudo ia bem, até que um surto de cólera no navio recoloca a viúva, sua filha Lilli e o pequeno Paddy na mesma Ilha. Quando Sarah morre, cabe a Paddy tomar conta de Lilli e tudo se repete na Ilha em que viveu seus pais. Ambos se apaixonam, mas os desafios são maiores pois um grupo de uma outra embarcação chega a Ilha causando confusão. O clima romântico da primeira sequência é mantido, e durante algum tempo, acreditei que este filme se tratava do clássico, pois são muito parecidos. 


Abre parêntese: não dá pra mencionar infância sem se lembrar de um personagem que embora não faça parte da história do cinema, faz parte da história da infância de muitos. O mexicano Roberto Goméz Bolaños foi o gênio que se inspirou em dois outros gênios Shakespeare e Charles Chaplin. Com essas inspirações, foi fácil para Chaves mostrar que na vida ainda havia espaço para sentimentos tão puros quanto de uma criança e tão nobres quanto de adultos. Alguns podem até não ser fã do programa ou do personagem que criou, mas certamente jamais esqueceram o que viram por pelo menos uma vez. Bolaños com muita competência, fez com que toda criança tivesse no coração todas os sentimentos que crianças deveriam ter. Neste momento, o mundo de muitos está de luto, mas no coração desses mesmos muitos não há espaço para tristeza, e sim agradecimento. Obrigado eterno Chaves!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Clube de Compras Dallas (2013)

Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013)
Direção: Jean-Marc Vallée
Com: Matthew McConaughey, Jared Leto e Jennifer Garner

Nota: 9
Dando continuidade aos filmes que marcaram o ano, vamos relembrar Clube de compras Dallas

É difícil classificar só assistindo a quase duas horas de projeção. Não se sabe se é uma obra didática, um clamor contra a marginalização de pessoas recriminadas pela sociedade por conta de opção sexual ou um relato dramático de uma história real. Então que tal juntarmos isso tudo? 

Craig Borten e Melisa Wallack nos levam a uma montagem quase perfeita de um início meio que um fim. Nos primeiros minutos, vimos o cowboy Ron Woodroof (Matthew McConaughey) resumindo numa só sequencia todo seu personagem. Mulherengo, viciado em sexo e drogas ilícitas. Em outros tempos, de cara, poderíamos atribuir todos estes predicados a um criminoso, a uma pessoa detestável. Mas o mérito da história de Ron está em desmistificar este padrão antiquado de mocinhos e vilões. E depois de uma brilhante e natural transformação do personagem, foi neste contexto que se firmou o filme contando como ele conseguiu afrontar um diagnóstico de 30 dias de vida e viver mais 7 anos depois da sentença de que se tornara um portador do vírus HIV. 

A palavra sentença definia muito acertadamente quem contraía o vírus até então desconhecido no início dos anos 80. Tão desconhecido a ponto de ser taxado de homossexual a pessoa portadora. Na visão de muitos na época, a Síndrome da Imunodeficiência adquirida, ou popularmente conhecida como AIDS, era “doença de viado”, como bem colocado numa zoação do grupo de Ron a Rock Hudson, galã hollywoodiano que assumiu a homossexualidade e morreu de AIDS em 1985. Assim não muito tardou e Ron, um garanhão homofóbico, sentir na pele o mesmo julgamento depois de ser diagnosticado. Este fato desencadeia a grande mudança de rumo da história e o start para a transformação do cowboy. 

Diante de vários “Não” dos médicos e ficar estagnado na burocracia da FDA que ainda testava as drogas com pacientes mais “qualificados”, ele decidiu agir por conta própria. Primeiro recorreu ao próprio bolso para pagar um faxineiro e conseguir a medicação que necessitava. Esta parceira terminou, mas deu início a uma outra. No México conheceu um médico que tratava os pacientes como ele com remédios alternativos não aprovados pela FDA. Três meses depois de uma violenta crise, ele descobre que a causa foi o AZT, o mesmo coquetel de drogas que seria a “salvação” dos doentes. Ron se engaja em várias pesquisas sobre a doença, e vê o vislumbre de mais uma boa parceria, só que agora bem mais duradoura e lucrativa. Ele ficaria encarregado de alertar a todos os pacientes americanos sobre os riscos do AZT e vender a eles a medicação alternativa que usou para se recuperar. Um bom negócio, que de quebra ajudava a ele e a outros terem mais chances de ter uma existência melhor. Uma forma quase perfeita de unir o útil ao agradável. Assim nascia o Clube de Compras Dallas, um dos vários espalhados pelo país bem abordado no filme. 

O diretor Jean-MarcVallée ajuda na construção da mescla de todos os elementos citados anteriormente. A direção de arte exibe os anos 80 diferente do que estamos acostumados a ver. Figurinos mais sóbrios e objetivos, sem aquele exagero característico de quem deseja retratar a época. Já o roteiro consegue se firmar na boa montagem, e segue linear sem nunca cair na dramatização excessiva. Vai direto ao ponto e com isso age naturalmente dando espaços para outros personagens interessantes além do cowboy “empreendedor”. A médica vivida por Jennifer Garner, que vai de crédula ao Sistema de Saúde em que trabalha a uma profissional decepcionada; o policial dividido (Steve Zahn) entre cumprir a Lei ou ludibria-la em deferimento a seu pai doente. Ah, sim, e ainda temos Raymound ou “Rayon”, um transexual também doente divinamente defendido por Jared Leto.

Leto, Garner e McConaughey: trio protagonizando cenas tocantes

A parceira de Ron com seu médico e clientes não foi muito diferente da parceria de seu intérprete com seu colega de cena. Com isso ambos foram contemplados com o Oscar numa dobradinha inesquecível. Tanto McConaughey quanto Leto abraçam seus personagens como deveriam: de forma natural, sem exageros e ambos trabalharam muito para manter a aparência impactante do filme. É comum alguns atores se destacarem e até serem também contemplados com o Oscar por conta da caracterização física. Jamie Foxx em Ray, Charlize Therón em Monster, Marion Cotillard em Piaf e Meryl Streep em A dama de Ferro. Todos podem até ter merecido o Oscar, mas diferente da dupla de Clube de Compras, a caracterização neste caso não apenas impulsionou, mas deixou fluir naturalmente traços de humanidade em seus personagens, sem o risco do ônus que fomentam a crítica especializada nestes casos. 

Voltando a temática do filme, vamos classifica-lo como um drama real com forte contexto didático e um tímido clamor contra o preconceito. O que deu liga a todos estes elementos foi justamente algo em que a trama se sustenta. A humanidade explorada com segurança nas vias boas e ruins de cada um deles. Que não trata de mocinhos e vilões. Apenas esclarece algumas questões que ficaram pendentes aos mais leigos no passado e que trazidas à tona hoje, ajudam a reforçar que o objetivo principal de todos os avanços deve ser o Ser humano sempre. Isso ficou explícito na cena final quando mesmo perdendo no Tribunal a disputa com a FDA, Ron foi ovacionado por todos na chegada ao escritório. Uma cena marcante, mas que tirou a nota 10 do filme com a proposta de não construir heróis, mesmo ocasionais. 

Em suma, McConaughey protagoniza um filme tão visceral, porém mais enxuto que O Lobo de Wall Street, tão histórico porém mais objetivo que American Hustle, e tão didático, porém muito mais apreciável que o aclamado 12 Anos de Escravidão. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Perfil: Leonardo DiCaprio - 40 anos em muitas vidas

"Tenho interesses em filmes socialmente comprometidos. Mas, se a história não for boa, e não emocionar o espectador, não vai interessar"

Filho da alemã Irmelin Idenbirkin e do ítalo-germânico George Di Caprio, Leonardo Wilhelm DiCaprio nasceu num ambiente privilegiado. Sua estrela brilhou pela primeira vez em 11 de Novembro de 1974 em Hollywood, ou seja, já estava fadado ao estrelato. O pai, quadrinista independente, conviveu com grandes nomes da música, dando ritmo à infância do ator. O célebre cartunista underground Robert Grumb e o escritor Charles Bukowski eram presenças constantes na vida do ator, que desde os 5 anos já atuava em comerciais e seriados.

Sua brilhante carreira deu início aos 17 anos no filme de terror Criaturas 3 (1991). O desempenho de Leo em Growing Pains, onde viveu um adolescente sem teto chamou a atenção do diretor Michael Caton-Jones e logo brilhava em O despertar de um homem (1993) ou seria o despertar de um astro? Cerca de 400 garotos fizeram teste para o personagem, mas com o aval do protagonista, um tal de Robert De Niro, Leo ficou com o papel do escritor Tobias Wolf. 

Depois deste “apadrinhamento” concorrer ao Globo de Ouro e ao Oscar no ano seguinte foi fácil. Como o irmão excepcional de Jhonny Deep em Gilbert Grape – aprendiz de sonhador (1994), ele arrancou além das duas indicações para melhor ator coadjuvante, aplausos merecidos do público e da crítica. Começava aí sua perseguição a Estatueta Dourada. 

Nos anos seguintes sua carreira se consolidou com papéis fortemente dramáticos. Em 1995 ele viveu dois destes personagens. O escritor Jim Carrol em Diário de um adolescente e o poeta bissexual francês Arthur Rimbaund em Eclipse de uma paixão. Reencontrou De Niro em As filhas de Marvin (1996) e ganhou o Urso de Prata em Berlim por Romeu e Julieta no mesmo ano. Mesmo diante de tanto reconhecimento conquistado de forma tão precoce, nada se compara ao que aconteceria em 1997 com o megasucesso Titanic.

“Havia muita pressão sobre mim e fui rotulado como um produto. Mas nunca cheguei a me descontrolar.” Esta constatação fez DiCaprio pensar em parar de atuar por um tempo após a chamda leomania, consequência do sucesso do longa de James Cameron. Quanto mais recordes o filme batia, mais aumentava a fama do jovem galã. Em Fevereiro de 2000 quando foi lançar o filme A Praia, o primeiro após Titanic, ele ainda atraía os gritos estéricos das garotas. Na época o ator nunca se imaginou nestas condições na carreira e depois de 10 anos, acredita ter desenvolvido mais ferramentas para o trabalho de interpretar. Titanic foi mesmo um divisor de águas em sua carreira, uma vez que posteriormente chegou a receber um cachê equivalente a de grandes astros como Harrison Ford e Mel Gibson e se colocou na mira de Spielberg, Woddy Allen, Ridley Scott e Martin Scorsese, a quem considera seu mentor. Com ele construiu uma sólida parceria de sucesso, incluindo Gangues de Nova Iorque (2003) e o vencedor do Oscar de 2007, Os Infiltrados.

Dando continuidade à sua brilhante trajetória no cinema, DiCaprio seguiu um estilo interessante de trabalho ao se dedicar inteiramente a projetos de valor dramático e artístico, ao lado de diretores e atores do primeiro time de Hollywood. Com estes títulos, sempre foi lembrado para premiações como o Oscar e o Globo de Ouro. Em 2008 conseguiu a proeza de ser duplamente indicado para o prêmio de Melhor Ator por Os Infiltrados e Diamante de sangue

Mesmo com seu talento já confirmadíssimo entre indicações e premiações, DiCaprio ainda é apontado como o astro mais injustiçado da história da Oscar. Seus últimos trabalhos mereciam um prêmio, especialmente Django livre (2012), estranhamente preterido a Christopher Waltz, numa atuação abaixo no longa de Tarantino. O detalhe é que Waltz acabou ainda assim abocanhando o Oscar. Em O Lobo de Wall Street (2013) mais um show, mas acabou sendo derrotado pela performance também louvável de Matthew McConaughey em Clube de Compras Dallas. O jejum de DiCaprio é algo que já rendeu muitas gifs e piadas na Internet, mas não pelo lado pejorativo e sim, soando mais como um reconhecimento de seu talento e clamor pelas injustiças que segundo alguns críticos e fãs, é notória sim. 

Fora das telas, a imagem de bom vivant desapareceu com o amadurecimento pessoal paralelo ao profissional. Os romances ficaram mais duradouros e em 1998 ele se engajou na defesa do Meio Ambiente criando a Leonardo DiCaprio Fundation e costuma militar ao lado dos Democratas Americanos. Diante de todas estas qualificações, é impossível não rotulá-lo como um dos maiores exemplos de astros que conseguem conciliar uma beleza transcendental com um talento extraordinário de construir personagens tão cativantes quanto sua postura de ídolo de uma geração. Um Astro de 40 anos que transitou com muita segurança por todas as gerações. Um ator que soube dar a todos os seus personagens uma regularidade impressionante. Um gato de todas as faces que sempre representou bem muitas vidas.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Menina de Ouro: 10 anos de emoções douradas

Menina de Ouro (Million Dolar Baby, 2004)
Direção: Clint Eastwood
Com: Clint Eastwood, Morgan Freemam e Hillary Swank
Nota: 10

Dez anos após sua realização, a grandeza deste pequeno grande filme continua enchendo os olhos e o coração de quem assiste. Sim, ele é emotivo, sentimentalista, e para os mais céticos, um “drama mexicano”. Porém jamais fugiu destas mesmas características para o qual foi criado. Emocionar, e como tal, carregar no chamado tragi-drama. Portanto, se você não é fã deste estilo, passe longe, pois neste ponto, deu um nocaute até nos mais gelados. 

Menina de Ouro começou surpreendendo a todos pelo “cabeça” do projeto. O durão Clint Eastwood produziu, dirigiu e atuou nesta pequena obra-prima de um pouco mais de 2 horas. Mistificado por seus personagens fortes no gênero faroeste, Clint se superou como um ator que também sabe fazer chorar. Aqui ele dá vida a Frank Dunn, um ex-treinador que agora trabalha numa Academia de Boxe decadente. Respeitado no meio por ser uma espécie de descobridor de talentos, logo se torna alvo da determinada garçonete aspirante a boxeadora Maggie Fitzgerald (Hillary Swank), que embora esteja velha demais para iniciar uma carreira no Boxe, o convence de que assim como ele, pode surpreender. Ambos têm personalidades fortes e não dão o braço torcer. São estas semelhanças providenciais que dão a liga na forte relação que se cria lembrando pai e filha. Ambos tem muito em comum. A vida não fora generosa com eles em seu meio familiar. Enquanto Frank sofre com o desprezo da única filha, Maggie é menosprezada pela sua família. Sua mãe egoísta (Margo Mantindale), a irmã golpista e o irmão malandro querem viver do dinheiro de sua profissão, mas tem vergonha dela. 

Frank e Maggie criam mais que um laço profissional quando a menina de ouro começa a ganhar fama. O talento de Maggie se sobrepõe a sua idade e com muita determinação, ela vai derrubando todas as adversárias até chegar a luta pelo título. Até chegar no momento crucial de sua vida e da vida de seu treinador, amigo e pai postiço. 

É neste enredo que o filme chama a atenção e ganha muitos pontos. Essa troca de interesses profissionais e profundamente pessoais dos personagens é bem delineada num roteiro maravilhoso escrito por Paul Haggis, o mesmo da miscelânea Crash, obra vencedora do Oscar de 2006. Roteiro esse cheio de cenas sensíveis e metáforas certeiras como a história de Maggie, seus irmãos e o cão que teve de ser sacrificado pelo seu pai. É interessante como o passado da personagem vem à tona de forma casual, sem o recurso previsível de flashbacks

A ascensão, glória e “queda” da menina de ouro, age também em momentos importantes protagonizados pelo veterano sempre ótimo, Morgan Freemam como Eddie Scrap, um ex-lutador de futuro promissor que perdeu a visão de um olho por conta de uma luta. Amparado pelo talento de Morgan, contemplado com o Oscar de melhor Coadjuvante, Eddie é uma peça fundamental na trama mesmo que não saia da Academia. É o responsável pela narração da história como sendo uma carta escrita para a filha de Dunn. É ele quem ajuda Maggie a convencer o amargurado treinador e é ele quem consegue defender a honra do carismático “Perigoso(Jay Baruchel), responsável pelo alívio cômico do filme.

Swank e Eastwood: parceria perfeita

Se Freemam brilhou com o texto leve carregado de ironia, Clint na direção não deixou a desejar com um trabalho formidável ao lado de Swank. O valentão mostrou versatilidade por trás e à frente das câmeras. Como diretor, venceu o Oscar, e como ator, concorreu ao mesmo, encarnando um personagem mais real, humano. Swank, atriz talentosa, mas de escolhas complicadas para a carreira, deixa fluir um carisma brilhante para sua personagem ora tão transparente, ora introspectiva em momentos de sofrimento em que as palavras são dispensáveis. Isso valeu também a Estatueta dourada. E olha que ela nem era a primeira escolha para o papel. Sandra Bullock desistiu após o atraso das filmagens. 

A química dos três atores e o talento de cada um ajudou na construção de personagens tão simples, mas ao mesmo tempo compostos. O bom ritmo do filme ditou as passagens de tempo e o decorrer de toda a essência da trama, não deixando que a simplicidade se tornasse banalidade, tendo um grande impacto nas sequências finais mais emocionantes. 

Para aqueles que pensam que o filme de Eastwood é um derivativo do popular Rocky, irá se decepcionar. Mesmo que o filme protagonizado por Stallone seja de grande apelo popular e um inquestionável contexto histórico, as comparações não cabem. A história é mais muito forte e com uma qualidade na trama dos personagens bem maiores que o vencedor do Oscar de 1977. Não é um filme que deixa cenas memoráveis como uma subida na escadaria depois de uma longa corrida. Não é um filme sobre a vitória no Boxe, e sim, sobre pessoas que vivem suas vidas esperando uma chance, buscando algo que as complete. A vitória neste caso não é subir na parte mais alta do pódio, conquistar o cinturão, e sim cada um vencer seus próprios limites, realizar. Quem viu, se realizou e jamais esqueceu!

Em tempo: Menina de Ouro foi o meu primeiro DVD que ganhei de meu irmão em 2005. É algo que marca realmente. Um presente de ouro! 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

10 Personagens assustadores do cinema

"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." H.P. Lovecraft


Hoje, 31 de Outubro celebramos o Halloween, ou vésperas de todos os Santos dependendo do acervo cultural de cada país. Confesso que o gênero terror não faz muito a minha cabeça, mas não a ponto de negar sua importância demarcada na história da sétima arte. O cinema de terror é algo que representa esta data tão famosa pelo mundo afora. Dentre os grandes, inesquecíveis e importantes filmes desta indústria, destacam-se também os personagens que ajudaram a mistificar o gênero e tirar a tranquilidade das noites de muitos fãs. Personagens que marcaram tanto vários momentos, que a maioria deles, tiveram vida longa no cinema e fora dele.

Pensando nisso, preparei uma lista dos personagens que mais me assustaram durante estes poucos, mas marcantes momentos que tive com estas obras:


1 – Nosferatu (1922)

Klaus Kinski e sua brilhante interpretação
O nome soa bem mais arrepiante que Drácula. E as diferenças não param por aí. Sem uma aparência mais humana, assusta mais, especialmente em sua silhueta bem retratada no filme Nosferatu de roteiro mais macabro. As distinções físicas ajudam a tecer a conclusão de que o Vampiro era aversão Neandertal do famoso Conde de Bram Stocker. Aqui Drácula vira Conde Orlok, por conta da burocracia de direitos autorais pela obra original. Ainda assim, o vampiro om garras, de dentes mais pontiagudos, orelhas enormes e olhar vidrado, é o retrato mais fiel ao público do gênero, pois ao contrário dos vampiros que geralmente vemos, ele não é nada romântico ou charmoso. É simplesmente um assombroso morto-vivo

2 – Norman Bates (1960) 

Anthony Perkins e seu "medo" pelo personagem que o consagrou
 
O pacato atendente de um Motel a beira da estrada é um dos mais instigantes personagens do Hitckokiano Psicose e do cinema. Não se trata de um ser sobrenatural da lista, mas também fez seus estragos. Sempre muito ligado à mãe de forma obsessiva, via as mulheres, suas principais vítimas, como seres do Demônio. Quando passa a se sentir atraído pela jovem Marion Crane, Norman é tomado pela personalidade da mãe já falecida, provocando o medo no público. O impacto do personagem foi tão grande que diz a lenda que o ator “teve medo” de interpretá-lo nas outras 3 continuações. 

3 – Zé do Caixão (1963) 

Jose Mojica Marins: pra sempre Zé do Caixão

O representante do terror nacional é um sádico Agente funerário. Trajado de forma sombria, de unhas enormes, e óculos que escondem seu olhar sinistro, marcou uma geração pelo medo. Extremamente confiante e egoísta, não se importava com os outros, vivendo seu mundo no ostracismo social. Seu objetivo era encontrar a mulher certa para poder procriar e trazer um herdeiro no mundo. Essa busca acabou lhe custando a liberdade, ficando ele preso durante anos e anos. De volta, deparou-se com um novo mundo do qual não conseguiu compreender. A confusão gerou mais sustos, corpos mutilados e sangue para todos os lados em muitas sequências de terror. 

4 – Menina Regan (1973)

Linda Blair: antes do ostracismo, rostinho angelical

Ao protagonizar um dos mais assustadores (senão o mais assustador) filme de terror de todos os tempos, a pequena foi a “escolhida” para cenas memoráveis dentro das sequências de arrepiar de O Exorcista. Ninguém jamais conseguiu dormir direito depois de vê-la pela primeira vez girar a cabeça em 360 graus ou descendo de costas as escadarias de sua casa. A cambaleante relação com sua mãe, pode ter sido o estopim para o início de todo o tormento. Elementos bem inseridos na obra com a grande interpretação da atriz, que estranhamente nunca conseguiu mais nenhum grande papel na carreira. 

5 – Irmãs Grady (1980) 

As gêmeas Lisa e Louise Burns: iluminadas pelo terror

“Venha brincar com a gente Danny. Pra sempre”. Quem nunca se arrepiou com esta frase depois de percorrer com o menino Danny o vasto corredor do Hotel de O Iluminado? A visão arrepiante de duas meninas bonitinhas e bem vestidas no corredor é um convite para muitos sustos. Uma cena breve, porém inesquecível, das famosas irmãs gêmeas assassinadas brutalmente pelo pai insano. O rastro de sangue se esconde na presença das meninas de semblantes cadavéricos e te deixam agarrado à poltrona. 

6 – Jason (1980) 

Jason, sua máscara e inúmeros intérpretes: entre eles Richard Brooker

Ao contrário da maioria dos serial killers o vilão mascarado não chega a ser um psicopata. Age por puro impulso sem motivo ou razão circunstancial. Quando criança, afogou-se no lago do acampamento Krystal Lake e depois que sua mãe é morta, retorna do mundo dos mortos com ódio e sede de vingança protagonizando uma série de assassinatos aleatoriamente. Nas 13 sequências Da franquia Sexta-feira 13, suas vítimas prediletas foram adolescentes que mal tem tempo de experimentar os prazeres que a vida lhes proporciona. Com seu inseparável facão, deixa um rastro de raiva e mutilações por onde passa. 

7 – Fred Krueger (1984) 

Robert Englund: o rosto por detrás do Senhor dos pesadelos 

Ele não é um simples bicho-papão, ou seja, aquele monstrinho que as crianças temem na hora de dormir, e que, insiste em povoar suas imaginações. Os ataques dos Monstro dos pesadelos são tão reais quanto mortais. Com suas garras de ferro deixa para trás um rastro de sangue e desespero em crianças em A Hora do Pesadelo. Após ser queimado por pais vingativos, consegue obter o poder de controlar os sonhos das pessoas e matá-las durante. Ficou tão famoso que ganhou vida também em um jogo da série de games Mortal Kombat. 

8 – Chucky, o boneco assassino (1988) 


Nunca deixe seu filho levar para casa um boneco com um rostinho de Anjo, pois nunca se sabe se de repente ele pode ser portador de uma maldição vingativa. Um ritual fez com que um espírito de um serial killer se apossasse do corpo inerte de um boneco, transformando o sonho de muitas crianças em pesadelo. O brinquedo de olhar sinistro, cabelos engrenhados e risada horripilante, atormentou a todos em Boneco Assassino. Sua força para assustar foi tão grande que ele sobreviveu a vários ataques, casou-se e ainda teve um filho. O boneco funcionava com a tecnologia de “animatronics” e em grande parte das cenas, era controlado por sensores e por até cinco pessoas que ficam manuseando-o como se fosse uma marionete. 

9 – Samara Morgan (2002) 

Daveigh Elizabeth Chase: nada de assustadora

Adotada pelo casal Anna e Richard Morgan, a menina com cara de Anjo e de pele alva é acusada de ser culpada pelas visões de sua atormentada mãe. Anna então leva a filha para a Fazenda onde a joga dentro de um poço. Na escuridão de sua prisão subterrestre, a protagonista de O Chamado viveu apenas mais alguns dias. A história de terror começa com tudo o que via, podia ser reproduzido em um objeto, encontradas na pasta de arquivos que ela tinha no hospital em que ficou internada. A fita foi criada depois que Samara morreu e voltou ao plano material como um espírito maligno que matava dentro de um período de 7 dias todo aquele que assistia ao vídeo depois de um chamado telefônico.

10 – Garoto Toshio (2004) 

O já adolescente Yuya Ozeki nunca esqueceu "o menino do grito"

O menino aparentemente pacífico é uma daquelas presenças de entidades que assombram casas, os chamados Poltergeist. Ele aparecia e desaparecida em cada cômodo, causando em suas vítimas um terror mais psicológico e quando conseguia deixá-los na exaustão de seus pensamentos, soltava seu apavorante grito. Quem o ouvia, estava com os dias contados em O Grito. Toshio e sua mãe foram vítimas de uma maldição japonesa depois de serem assassinados de forma brutal e extremamente desumana. A raiva e ódio que sentiram naquele momento, ajudaram a carregar a casa com ares nada confiáveis.

Muitos personagens míticos também ficaram de fora, mas como disse anteriormente meu conhecimento na área de terror é propositalmente limitado. Por isso arrisquei retratar apenas aqueles que ajudaram a me traumatizar nesta área. Neste momento meu lado limitado neste campo falou, ou melhor, gritou, mais alto.

domingo, 26 de outubro de 2014

A Menina que roubava livros (2013)

A menina que roubava livros (The Book Thief, 2013)
Direção: Brian Percival
Com: Sophie Nélisse, Geofrey Rush e Emily Watson
Nota: 6

Um dos filmes mais aguardados deste ano foi A menina que roubava livros, dirigido por Brian Percival. O filme é baseado no sucesso editorial de mesmo nome e seguindo a linha da chuva de adaptações literárias para o cinema, pecou ao trazer expectativas demais junto ao público fidedigno ou mesmo aqueles que não são. Em outros termos, uma coisa é ler o livro e achar o máximo, outra é ter a mesma interjeição quando este se aventura na sétima arte. As transformações são inevitáveis sabendo que a fidelidade à obra original é praticamente impossível de se alcançar ao bater da claquete. 

Estamos em 1938 na ascensão do Nazismo na Alemanha e logo já nos compadecemos com os dramas que enfrenta a menina Liesel Meminger (Sophie Nélisse), abandonada pela mãe comunista por conta de forças maiores. Quando seu irmão mais novo morre na fuga, a matriarca resolve dar a Liesel uma nova família, um novo recomeço. Ela é adotada pelo casal alemão Hans Hubermann (Geoffrey Rush) e Rosa (Emily Watson) depois do enterro de seu irmão. Este episódio muda sua vida ao se defrontar com aquilo que será sua paixão nos próximos anos. O Manual do Coveiro, que cai do bolso do homem no cemitério, é o primeiro exemplar de uma série de livros que irá colecionar na memória. Mas a luta começa quando Liesel sofre na Escola por não saber ler. Coube então ao pai adotivo ajudá-la superar este desafio e depois de muitas histórias contadas pelas páginas consegue alfabetizá-la usando seu porão para isso. A determinação da menina é algo que assusta o patriarca alemão ao vê-la resgatar em meio às brasas teimosas de uma pilha um dos volumes considerado inapropriado pelo regime Nazista. A extinção dos livros através das chamas da Ditadura é certamente uma das melhores passagens do filme.

A queima dos livros: um dos raros momentos de beleza crua da trama

Este pequeno ato de coragem, mas de uma grandeza impressionante, comove a mulher do prefeito que abre as portas de sua biblioteca para a menina que roubava livros. Liesel mergulha a fundo nesta aventura contando mais tarde com a ajuda do amigo Rudy (Nico Liersch). Um garoto que desconhece os preceitos do regime e idolatra um atleta negro, o corredor americano Jessie Owens, que fez história com suas 4 medalhas no Atletismo olímpico em plena Alemanha Nazista. Logo o talento para correr do menino é percebido pelo Governo, mas Rudy se nega a satisfazer um regime opressivo e foge do recrutamento. As crianças seguem vivendo suas vidas sabendo dos perigos que as cercavam todos os dias daquela época difícil com o estouro da Segunda Guerra e das bombas que caíam sobre a cidade de vez em quando. A situação piora para Liesel e a família Hubermann quando o filho de um Soldado judeu que havia salvado a vida de Hans durante a Primeira Guerra pede asilo. Se sentindo em dívida com o amigo, o alemão acolhe em sua casa o jovem Max (Ben Schnetzer), que também é fã de livros. Então logo se aproxima de Liesel, tornando seu amigo, confidente e parceiro na hora da leitura. Esta amizade irá se estender por muitos anos, entre momentos de alegria e sofrimento. 

Para quem leu o livro, alguns pontos abordados no filme foram considerados decepcionantes, afinal, como citado acima, é muito complicado se encontrar um consenso entre literatura e cinema. No entanto, as limitações da obra não ficam somente a cargo das armadilhas de adaptá-la para o cinema. Neste campo, ela chega a comover em algumas cenas especialmente as pavimentadas com a narração da Morte, que podemos dizer sem exagero, é a personagem central do filme e que foi de fato um acerto na voz do ator Roger Allam. A própria se coloca bem na perspectiva de todos os personagens do filme sustentados por atuações que transitam entre o razoável e excelente. A menina Sophie demonstra talento ao protagonizar o filme, porém lhe falta o que talvez seja primordial quando se trata de interpretações infantis: empatia. Assim fica difícil mergulhar tão intimamente nas emoções cruas da menina, que vai apenas se apoiando no forte contexto da trama, na trilha sonora e na narração. Em outras palavras, a história por si emociona e não sua protagonista. O casal alemão também não trabalha em plena sintonia. Enquanto Rush se perde entre o avassalador do início e um mero coadjuvante no fim, Watson dá um show como a mãe durona de coração mole. É uma das melhores e mais instigantes atuações do ano com certeza. 

O roteiro poderia se fazer inesquecível aproveitando o fio da meada de um dos temas. A visão das crianças acerca da brutalidade da Guerra. O mesmo elemento usado em O menino do pijama listrado (2008), outra obra adaptada, não funcionou aqui. Este conseguiu comover na medida certa com um final muito mais comovente e impactante, ou seja, aquilo que não se deixa esquecer. O filme de Percival bem que tentou, mas deixou que no fim a emoção se transformasse numa novela de sentimentalismo barato que logo que termina, o espectador já se esqueceu do que viu nesta rajada de temas que ornamentou a história. Erro de foco que se apoiou em outros tópicos para ajudar a emocionar. Bem aquém da expectativa dos fãs, e nada a ponto de roubar dos leigos a sensação de que tudo poderia ser bem melhor. 

domingo, 19 de outubro de 2014

Amadeus: espetáculo imperdível

Amadeus (Amadeus, 1983)
Direção: Milos Forman
Com F.Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge e Jeffrey Jones

Nota: 10 

Inspirado na peça homônima de Peter Schaffer, o diretor Milos Forman levou para as telas do cinema uma história brilhante de um dos maiores nomes da música de todos os tempos. O resultado final foram 8 merecidas estatuetas para uma obra que se aproxima mais de um clássico do que uma biografia de Wolfgang Amadeus Mozart. 

Como o próprio compositor austríaco, sua história é cheia de complexidade e de difícil caminho a ser percorrido pelos vários cineastas que se aventuram a traduzi-la para as telas. Há muitas obras sobre Mozart, muitas versões, aversões, contradições, ou meros boatos para delinear sua trajetória. Sendo assim, parece então mais fácil recriar uma versão para sustentar algo que agradaria a todos que admiram uma ótima história. 

Comecemos então por uma liberdade poética essencial para criar uma trama com protagonista e antagonista que agradou e muito a todo o público e fez de Amadeus uma obra inesquecível. A rivalidade entre compositor italiano Antônio Salieri e Mozart já foi descartada por alguns estudiosos. Os mais ousados até declaram que Salieri nunca foi o compositor medíocre que o filme de Forman quis passar e que na verdade era Mozart quem tinha inveja de seu sucesso. Fatos e boatos à parte, o que interessa é analisar um dos espetáculos visuais mais lindos do cinema. 

“Um homem dividido em dois.” Assim se define Antônio Salieri (F. Murray Abraham) em sua jornada particular da relação com Deus, a música e Mozart (Tom Hulce). O filme se centra na figura do compositor italiano que narra durante uma confissão no hospício como suas emoções em relação à figura de Mozart terminaram por afetar seu juízo. Diante de um perplexo Padre (Richard Frank), ele descreve sua paixão pela música desde a infância numa família desprovida de apreço musical. Depois da morte de seu pai, Salieri dedicou toda a sua castidade a Deus e sua vida a este objetivo, a fim de tornar-se o melhor compositor de Viena até a chegada de seu “rival” à cidade que segundo ele, expõe toda sua mediocridade ao mundo. É o que podemos chamar da diferença entre ser uma pessoa esforçada naquilo que faz e ser um gênio nato. Esse foi o grande mote da história. A razão da revolta interior do compositor italiano. Mesmo que tentasse, rogasse em preces e orações, Salieri jamais conseguiria superar o que ele chamou de “a criatura de Deus”.


Ainda assim, o sucesso de Salieri era evidente em meio ao grande público e como o Compositor mais respeitado da Corte do Imperador Joseph II (Jeffrey Jones), interferia com total autoridade em tudo que se via pelos palcos da bela, mas ainda questionável em matéria de cultura musical, Viena. Tudo era entregue às mãos do Imperador, que mesmo tendo um Conselho manipulador para isso, tinha sempre a última palavra sobre. Sagaz, Salieri era testemunha das limitações do Monarca acerca do assunto, mas nunca deixou de dançar conforme a música da época. Mesmo admirando a obra genial de Mozart, fez de tudo para sabotá-lo na Corte por se sentir diminuído diante dele e pelo próprio Deus. O divino passou a ser alvo de sua revolta depois de uma tentativa frustrada de se vingar do rival através da dedicada esposa do mesmo Constanze (Elizabeth Berridge). Para Salieri, Mozart tinha tudo que ele escolheu se privar. Tudo lhe foi concedido por obra divina sem nenhum esforço, sacrifício. 

O misto de admiração e inveja é condensado de forma mágica, na sublime interpretação de Abraham. Tanto no passado vivendo o auge do compositor como no presente, já velho debilitado por uma tentativa de suicídio. A reação estarrecedora estampada na fisionomia do Padre é um retrato perfeito da reação de quem assiste a atuação de Abraham. Seguramente uma das 10 melhores de todos os tempos do cinema. Hulce também faz um excelente trabalho como o compositor em sua fase extrovertida. Seu jeito moleque, sua gargalhada contagiante e aos mesmo tempo inesquecível é a marca registrada da contradição entre os dois personagens. Em sua fase de declínio, perde um pouco esta força magnética especialmente em comparação a Abraham, regular o filme todo. Talvez este tenha sido o detalhe que definiu o vencedor do Oscar. 

Quando ouvi falar em Amadeus pela primeira vez, pensei como a maioria dos leigos em relação a música clássica, sua história e contexto cultural. A armadilha de se tornar um filme maçante de 3 horas com música alta, acordes incompreensíveis para ouvidos menos apurados, berros de sopranos e danças nauseantes, se esvai num show de beleza cinematográfica através das atuações, cenários e figurinos minimamente produzidos num ritmo tão perfeito de quadros no roteiro, que é impossível esboçar qualquer bocejo diante disso. 

Um êxito de uma das muitas versões da lendária história do compositor aqui mostrado como um homem que possuía um talento nato para a música, sofreu com a pressão de ser quem era, e ainda assim viveu suas paixões de forma natural. Entre farras, brincadeiras e bebedeiras, fez de sua personalidade escrachada pra obscena, um ultraje à sociedade conservadora. Como todo gênio, foi incompreendido por muitos, exceto por seu mais ilustre admirador. O algoz narrador de uma história avassaladora entre notas de raro dueto. A música fabulosa de um gênio é um êxtase para os ouvidos e o filme centrado num personagem fenomenal um êxtase para os todos os sentidos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Millenium e duas formas de não amar as mulheres


Baseado na fantástica Trilogia literária do sueco Stieg Larsson, o diretor Niels Arden Oplev adaptou Millenium – Os homens que não amavam as mulheres para o cinema de lá. O êxito foi tanto que chamou a atenção de Hollywood, e pelas mãos do talentoso David Fincher veio uma nova adaptação em 2011. A proposta agora é analisar as diferenças destas obras em cada tempo, país. 

A história


O filme traz o jornalista investigativo Mikael Blomkvist da Revista Millenium à beira de uma desmoralização profissional e prisão eminente até aceitar um trabalho que mudará os rumos de sua vida e de sua carreira. Ele é contratado por Henrik Vanger, um poderoso industrial para descobrir o que de fato teria acontecido com sua amada sobrinha Hariet. Mas logo Blomkvist percebe que não está sozinho em sua empreitada. Ele recebe a ajuda de Lisbeth Salander, um habilidoso hacker punk-feminista, que também por motivos de trabalho, tem consigo todas as informações de seu computador pessoal envolvendo o caso. De personalidades marcantes e distintas, juntos, a dupla consegue desvendar o mistério por detrás do desaparecimento da jovem. Mistério esse que envolve preconceito, incesto e Ideologia deturpada. 

O contexto cultural da história

O Herói hollywoodiano e a heroína sueca em primeiro plano

Enquanto a profundidade das questões femininas é bem locada dentro da Suécia, a versão americana não faz jus a este contexto. A figura de Lisbeth Salander dentro do país escandinavo é bem mais onipresente neste sentido do que em terras americanas. As mulheres se tornam o principal da primeira versão, com isso, a heroína tem uma participação bem mais ativa no desenrolar de toda a trama. Em Hollywood, a cultura machista ainda é predominante, onde podemos notar em coisas triviais como a capa/pôster do filme de Fincher com a figura do herói masculino (Daniel Craig) em primeiro plano. 

Lisbeth e Lisbeth


Com um contexto histórico bem mais equilibrado para o seu lado, não foi difícil para a atriz sueca Noomi Rapace colocar definitivamente sua heroína no hall de personagens inesquecíveis. De personalidade forte, agressiva e dominante, ela tomou as rédeas da situação na trama. Enquanto Rooney Mara fez um bom trabalho naquilo que foi proposto. Uma Lisbeth mais suave, fragilizada, dependente do galã bonitão para se sentir relevante na história. Dentro desse contexto, podemos afirmar que ambas se saíram bem em seus papéis, mas a atuação de Noomi foi bem mais visceral. 

Mikael e Mikael

Mikael Blomkvist em dois momentos: como o parceiro e o Herói.

Com a figura feminina mais embrutecida na Suécia, o personagem do ator Michael Nyqvist é bem mais sensível do que o de Daniel Graig, carregado com traços de 007. O herói que tudo sabe, tudo vê, e é bem mais perspicaz. Sendo assim, a Lisbeth de Mara não deixa de ter uma participação valiosa, porém há momentos em que não passa de uma mera ajudante do herói ou uma Bond girl carente e desamparada. Já a Lisbeth de Noomi é mais independente. Não se deixa agir de forma passiva. A dinâmica entre as duas duplas/casais é invertida dentro do contexto já mencionado, mas a força dos dois personagens dentro desse mesmo contexto, embora distintas, não é alterada para mais ou para menos.

Os Vilões


Pra quem conhece a história, sabe que Martin Vanger, herdeiro das Indústrias Vanger e filho de pai Nazista, é o grande vilão. Na Suécia, ele é interpretado por Peter Haber. O ator pode até ser talentoso em seu país, mas aqui não se sai bem e muito menos é superior a Stellan Skarsgard, o Martin da versão americana. Além de bem mais a vontade no papel, Stellan é bem mais assustador que Haber, no entanto, o desfecho do personagem sueco mexeu muito mais com as emoções dentro da trama de Lisbeth. 

Narrativa e efeitos visuais


Quando se fala em efeitos visuais não dá para comparar. David Fincher, especialista em montagens e belas fotografias, dá um passo adiante da versão sueca, que peca um pouco na dramatização excessiva em certos momentos e deixa algumas lacunas na trama, como por exemplo, o fato de Lisbeth (Noomi) saber rapidamente e exatamente onde procurar os nomes da lista em citações bíblicas. Em nenhum momento, dentro da trama cinematográfica, tivemos conhecimento da familiaridade da moça com o “mundo religioso”. Mais fiel ao livro e a própria narrativa cinematográfica, a versão americana coloca a filha de Michael, religiosa, como quem desvenda esta parte da trama. Contudo, há de se convir que a importância dada a Lisbeth na versão sueca pode até justificar este pequeno deslize narrativo. 

Cenas fortes


Estupros e violência de todo o tipo são o carro-chefe da obra de Larsson na história de sua personagem principal. Lisbeth construiu toda a sua vida embrutecida pelas relações conturbadas com homens e nunca se sentiu amada por eles. E uma dessas relações foi com o seu tutor o inescrupuloso Björn Granath (Gustavo Morell). Em troca de capital para as usas necessidades, Lisbeth tinha de atender favores sexuais para ele. E quando isso acontecia, a violência do homem era no mínimo impactante. Numa dessas, a hacker filma o ato e passa a chantageá-lo com o DVD, que será importantíssimo para o desfecho de toda a história. As cenas são fortíssimas, bem filmadas e representadas. Na versão americana, Fincher suaviza um pouco este lado, mas ainda assim as cenas ficam fortes e tensas. 

Desfechos e continuações


O sucesso de Os homens que não amavam as mulheres (2009) na versão sueca rendeu duas ótimas continuações. A menina que brincava com fogo (2010) e A Rainha do Castelo de Ar (2011). Todas entrelaçadas num único enredo. Este foi o ótimo padrão de toda a Trilogia de Oplev, que parece ter sido filmada de um take só e dividida em três partes. A coerência de todos os fatos ajudou a desenvolver todas as histórias bem fechadas dentro do que representava cada personagem. Esta é uma diferença mencionável dele para a versão amarrada de Fincher, fechada demais para ser uma boa âncora para os próximos filmes. Diretor e roteiristas terão de ser bem ousados e criativos para esta missão. Além disso, a fraca bilheteria ameaçou outra continuação e boatos dão conta que Daniel Craig, o ator principal não participaria destas sequências. 

Embora goste e me identifique mais com a versão sueca, há quem afirme categoricamente que a versão americana é melhor. Não me cabe julgar opiniões diversas, apenas fazer estas comparações dentro dos principais elementos que encontrei e achei mencionáveis das duas versões. A quem interessar, eu prefiro a Lisbeth de Noomi, prefiro a história bem mais contextual, emocionante/sentimental de Oplev, mas pra quem gosta das adaptações americanas, tem o que tirar de bom também do filme de Fincher, um diretor talentoso que fez seu elenco trabalhar naquilo que foi proposto. Ser apenas diferente. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

X-Men Dias de um futuro esquecido: feito para não esquecer


X-Men Dias de um futuro esquecido 
(X-Men: Days of Future Past, 2014)
Direção: Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Hugh Jackman, Patrick Stweart e Ian McKellen
Nota: 8

Filmes que tem os Heróis conhecidos como protagonistas no geral não têm uma grande preocupação de qualidade no roteiro, tramas mais caprichadas com uma construção de personagens. Afinal, para um fã no afã de ver sua paixão ganhando vida e poderes nas telas, nem conta se consiste ou não este devido capricho para honrar estas obras. Perguntem por que Superman de 1978 é reverenciado até hoje como um clássico e todos os filmes que o sucederam até o presente momento, nem chegam perto de sê-lo? Ou então por que Batman- O cavaleiro das trevas de Christopher Nolan fez um vencedor do Oscar em 2009? Nesses casos, nem precisa chegar perto de ser uma obra-prima, mas uma boa história contada e um roteiro que segue a coerência é o suficiente para satisfazer o espectador um pouco mais exigente. X-Men Primeira Classe de 2011 foi um deles. 

Lançado pelas mãos do diretor Matthew Vaughn, contou o início da saga dos “homens de Xavier”. Seu êxito apagou todos os erros cometidos pela primeira trilogia de Bryan Singer lançada em 2000. Em X-Men – Dias de um futuro esquecido, Singer e os mesmos roteiristas, não esqueceram o que elevou a saga dos mutantes dando continuidade à boa história anterior, que explorou uma identidade mais humana dos personagens míticos de heróis incompreendidos e temidos por uma humanidade preconceituosa. Charles Xavier (James McAvoy), Raven (Jennifer Lawrece), Erick Lehnsherr (Michael Fassbender) e Hank McCoy (Nicholas Hoult), para quem se lembra, foram bem trabalhados num roteiro funcional. 

Agora uniram os atores da primeira Trilogia de Singer com os de Vaughn e isso me impulsionou a querer pagar para ver. No futuro, os poucos sobreviventes liderados pelo Professor Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) usam seus poderes para enviar Wolverine (Hugh Jackman) ao passado para deter Mística (Lawrence) que teria assassinado Bolívar Trask (Peter Dinklage), idealizador do Projeto Sentinela. O ato desencadearia um futuro apocalíptico para os mutantes, pois capturada, Mística e seus genes, seriam a arma perfeita do insistente Trask para tornar as Sentinelas imbatíveis exterminando quase todos eles. Se Mística matasse Trask, o Governo Americano entraria em pânico, ordenando o início do Projeto Sentinela. Aliás, estes robôs gigantes foram um show à parte, não apenas pelos efeitos especiais, mas também pela trilha sonora característica das personagens. Me senti em frente à TV ainda menina sentindo medo delas. 

A tática de se voltar ao passado para consertar algo no futuro não é nova e muito menos original, mas funciona se bem empregada numa trama convincente, explicada nos primeiros 20 minutos. No filme, Wolverine teria de convencer os jovens Charles e Erick, lendários por suas Filosofias diferentes acerca da interação com a humanidade, a trabalharem juntos. Tarefa complicada ainda mais quando o Herói com garras sem adamantium (um sub-trama interessante) encontra um Charles totalmente devastado pelas consequências da Guerra do Vietnã que minou sua Escola e a perda da amiga Raven para o ex-amigo e aliado Erick. E com a atenuante de estar sem poderes, já que um soro desenvolvido por Hank o faz andar, mas com este ônus. 

Contudo, o que era difícil se torna fácil graças a uma agilidade nociva no roteiro. Em pouco tempo, Wolverine convenceu Charles, que ajudou Erick a escapar de uma prisão por ter supostamente assassinado o Presidente Kennedy. A tensão dramática foi quebrada pelo curto espaço de tempo de uma ação e outra e ainda mais quando se tem cenas inúteis e enfadonhas de jovens engraçadinhos exibindo seus poderes para alegrar uma plateia teen. Lembrando que um dos pontos menos entusiasmantes da primeira Trilogia foi a enxurrada de figurantes de luxo que deixam pra trás histórias mal contadas. Sabemos que cada mutante tem seu poder em particular, no entanto, pra quem está longe de ser uma fã ardorosa devoradora de quadrinhos, é normal se sentir um pouco perdida. Nesse caso, o melhor é deixar a confusão acerca de poderes e se concentrar nos personagens mais relevantes e no objetivo principal de toda a história. 

O elenco, ponto positivo de Primeira Classe, segura bem um texto nada extraordinário, apenas eficiente. McAvoy e o talentoso Fassbender formam uma bela dupla antagônica dando suporte ao carisma eterno de Jackman e seu Wolverine e o talento reconhecido de Lawrence. Por outro lado, não há muito do que se dizer de Stewart e McKellen que pouco aparecem, assim como Ellen Page e Halle Berry, vencedora do Oscar, que nem estaria na trama se não fosse a preocupação pelas cifras nas bilheterias. O contexto histórico da Guerra do Vietnã bem como o assassinato do Presidente Kennedy também foi bem inserido naquilo que a saga X-Men tem de melhor. A questão da opressão e discriminação no caos político vivido pela sociedade americana de encontro com o medo que a humanidade tem do que é diferente. Tudo inserido no discurso final de Magneto que foi muito melhor e de mais impacto do que flutuar ao lado de um estádio de Futebol inteiro pelos ares. 

No clímax dramático na redenção de Mística, valeu o ingresso. Lawrence, formidável como de costume, deixou sua personagem fluir, e enfim, dividiu com Wolverine a relevância na história. A dualidade humana vista em Raven, uma jovem perdida que anseia por respostas e Mística, uma mutante corajosa em busca de vingança. Este conflito pessoal elevou a personagem, que merecia sim ter em suas mãos o destino dos mutantes, afinal, sua representação mórfica é muito alusiva às diferentes personalidades humanas.

Assim como existe a mensagem clara de X-Men, a coexistência pacífica apesar das diferenças, no cinema não é muito diferente. Se de um capricho maior com as histórias emergem produções interessantes como essa, por outro lado, o objetivo apenas de entreter ajuda a alavancar as bilheterias. Neste contexto, ambos são de suma importância para o cinema. Mas quando se tem uma ótima mescla dos dois elementos, ele se torna algo mais prazeroso de se assistir.

Dias de um futuro esquecido: aqui a "bagunça de mutantes"
serviu a seu propósito em todos os âmbitos

X-Men - Dias de um futuro esquecido desenvolve com mais maturidade a primeira sequência, especialmente entre Charles e Raven. Mas ambas produções cumprem bem o seu papel de esquecer os equívocos de X-Men, X-Men 2 e X-Men 3 - O Confronto final. O fim deixa pra trás mais indagações, que os mais otimistas chamariam de ganchos para o próximo capítulo da saga. A volta de Jean Grey (Famke Janssen), viva, Ciclope (James Spader), infelizmente vivo, e Vampira (Anna Paquin), que só aparece de relance quase imperceptível se juntam no chamado happy end ao lado de tudo como deveria ser na Escola Xavier. A cena pós-créditos - essa sim gancho mesmo – nos mostra um culto em meio as areias do grande deserto numa amostra arrepiante do que vem por aí. X-Men Apocalipse (título provisório) deve tentar aparar estas arestas. Ou não. Mas até lá, a mim só resta exaltar mais este êxito e deixar para trás amargas lembranças de um passado esquecido quando se trata de filmes do gênero. 

PS: Desculpem quem ainda não assistiu ao filme, mas penso que a estas alturas do campeonato não cabe se revoltar com spoilers.